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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Salve-se quem puder

Você está em casa, terminando de se arrumar, quando batem a porta. Você abre descansado, afinal o condomínio possui guardas e todo um arsenal de segurança, quando é surpreendido por ladrões.

Roteiro de filme americano? Não. Um ato rotineiro conforme a própria polícia de Porto Alegre.

Nos últimos meses a população parece estar dentro de um filme de faroeste. Acerto de contas em ruas movimentadas em plena luz do dia. Lojas arrombadas diversas vezes em um curto período de tempo, casas e apartamentos invadidos, sequestros, mães lutando para tirar seus filhos da cadeirinha antes do carro ser levado.

Renato Russo já perguntava nos anos oitenta que País é esse?. Se estivesse vivo, provavelmente teria muita munição para as suas músicas.

Leis em quantidade e não em qualidade, um judiciário preconceituoso, corrupção instalada em todas as áreas públicas. Não existe mais respeito. Não existe mais direito. A polícia sucateada. Saúde para poucos. Educação ninguém sabe onde se escondeu.

Enquanto o povo se divide entre petralhas e coxinhas, os políticos se abraçam nos bastidores, os impostos aumentam, os itens básicos não são atendidos. 

A conclusão de tudo isso? Hoje temos medo. Vivemos na ditadura da bandidagem. O exército que invade lojas e casas só não tem farda. O exército que transfere as nossas riquezas para o exterior só não tem medalha. O soldado que mata o pasteleiro na esquina só não bate continência.

Salve-se quem puder disse um delegado. O que resta pra nós?

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Definições

O Mentiroso é o preguiçoso que inventa a vida que sonha ao invés de lutar por ela.
O fofoqueiro é o solitário, cuja vida é tão vazia, que o obriga a contar a dos outros para ter assunto.
O fofoqueiro mentiroso é o escritor frustrado, cujas histórias são tão ruins, que ele precisa buscar personagens reais para tentar salva-las.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

O seu futuro em um e-mail



Existem videntes tão bons que inclusive visualizam o endereço das pessoas que precisam manter contato.

Pelo menos é o que vem ocorrendo na minha caixa postal, uma avalanche de mensagens dizendo que precisam urgentemente entrar em contato comigo. Em um dos casos existe até uma espécie de ameaça, onde ela me informa que uma amiga teria evitado um grave acidente se houvesse aceitado a oferta. Para amenizar, existe também a que perdeu muito dinheiro por ignorar tamanha bondade.

Como a tal vidência é gratuita, dei uma de gato e cliquei em duas das ofertas para matar a curiosidade. Em um dos casos ela só pede o nome e a data de nascimento, um segundo já pede também a forma de tratamento (senhor/senhora/senhorita). Ao receber as previsões, era um conjunto das já conhecidas características de quem nasceu sob o meu signo. Para vocês entenderem melhor, vou dar alguns exemplos:

1) Eu preciso de um valor em dinheiro urgente. E em ambos os casos se eu fizesse uma pequena contribuição este valor iria entrar rapidamente em minha conta, pois teriam esse poder.

2) Me afasto de qualquer futilidade.

3) Não gosto de viajar.

Obviamente há a previsão de algo muito negativo chegando, assim como uma chuva de ouro que me tornará feliz e confiante. E saberei de tudo se pagar a pequena quantia solicitada e responder um questionário sobre detalhes da minha vida.

A minha primeira reação ao receber a tal previsão gratuita foi dar risada, mas sem querer eles montam um perfil de quem procura este tipo de serviço. E aqui começa a parte séria da nossa conversa.

Confesso que fiquei um pouco chocada com o perfil de pessoa que eles esperam entrar em contato. Todas as deduções me levaram a uma pessoa frágil, talvez depressiva, mas que com certeza se sente sozinha. É um texto extremamente negativo, onde de tempos em tempos a oferta de um plano de previsão completo aparece como uma tábua de salvação basta uma pequena contribuição, visto que o seu caso é único e muito interessante, e a solução para deixar de ser infeliz é informar o número do seu cartão de crédito.

Possuímos o livre arbítrio, e com isso mudamos o nosso futuro todos os dias. Ninguém irá lhe trazer amor, dinheiro ou felicidade se não levantar a bunda e correr atrás. Cada um pode ler o próprio destino, desde que dedique um tempo para se observar verdadeiramente, sem ilusões, fumaças ou máscaras.

Problemas todos têm: alguns maiores, outro menores; mas lembrem-se sempre de um provérbio chinês: "Se o problema tem solução, não esquente a cabeça, porque tem solução. Se o problema não tem solução, não esquente a cabeça, porque não tem solução.".

domingo, 6 de abril de 2014

Coelhinho, preços dos ovos e diamantes

A origem da Páscoa é remota, e seus festejos diversos. Cheia de simbolismos ligados diretamente com a história da humanidade, e, neste caso, não apenas com a parte cristã. Mas nem a travessia do mar vermelho, nem a fertilidade representada pelo coelho são muito lembradas no dia de hoje. Para grande parte da população brasileira a questão toda é o preço dos ovos de páscoa.

Os ovos e coelhos começaram de forma inocente, eram de chocolate ao leite, em embalagens coloridas. Com o tempo os ovos foram ganhando bombons. Depois, nossas barras de chocolate favoritas foram promovidas a ovos neste período especial, após os bombons viraram brinquedos e finalmente suas cascas foram recheadas.

Assim como os seus sabores foram ficando diversificados, seus valores foram sendo aumentados. A cada ano eles aparecem mais caros, e as redes sociais se enchem de protestos e sugestões do tipo: não compre o ovo, compre a barra.

Se o presenteado adorar ovos de lojas mais renomadas, o custo de três ovos pode até mesmo pagar uma joia. E se os valores continuarem nesta exponencial irá facilitar muito a vida das mulheres, que poderão trocar facilmente os ovos de chocolate por brincos de diamante.

Em relação às crianças, hoje já é mais fácil deixar o chocolate (que afinal facilita o aparecimento de cáries e da obesidade infantil) por brinquedos, pois dois ovos infantis não saem por menos de cinquenta reais.

Mas para economizar mesmo, as famílias podem simplesmente resgatar a função de um almoço juntando pais e filhos (com seus tables e smartphones desligados).

Só que não adianta reclamar quando a questão da elevação do preço dos ovos não passa de um simples reflexo de uma sociedade consumista, que não pensa mais nos porquês, mas sim no que comprar e ganhar. Todas as datas especiais estão sendo soterradas pelo ter que comprar ter que dar. Sendo que o simples às vezes tem muito mais amor.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Você tem fome de que?



Confesso que não entendi muito bem a história de protestar dentro do shopping. Principalmente em Porto Alegre, onde em dia de passe livre a galera toda se enfia neles. Mas vamos lá.

É citado o preconceito por ser de uma classe social mais baixa. Queridos! Os vendedores de shopping são preconceituosos por natureza. Seja rico, classe média, pobre, se não aparecer cheio de joias fake, bolsa de marca falsificada e maquiada para um casamento, eles vão te olhar de alto a baixo igual.

Alguém vai me dizer que é preconceito ficar com medo por que entram em bando. Mas se estivessem de terno e gravata todo mundo ia ficar com medo igual (alguns inclusive iriam acreditar no mundo de Matrix). Um volume grande de pessoas, todas juntas e reunidas caminhando na mesma direção, irá causar pânico naturalmente.

Sim, a polícia está intervindo nos shoppings de São Paulo. Mas não sei como funciona lá. Em Porto Alegre, em dia de passe livre, se vê muitas pessoas simples olhando vitrine ou sentadas conversando. Os seguranças ficam alertas? Ficam. Pois sempre tem um espertinho misturado para tentar levar vantagem, como ocorreu nos protestos de julho de 2013. Pessoas de melhor situação fogem do shopping? Sim, fogem. E vão fugir ainda mais rápido se entrarem em bando.

Agora, por que no lugar de protestar por shopping, não vão protestar por uma melhor educação? Sim. Pois é a falta de educação que gera o preconceito (de todos os lados). É a falta de educação que elege políticos corruptos. É a falta de educação que impede de se crescer profissionalmente e ter condições de comprar o que está nas vitrines.

Querem igualdade? Lutem pelos seus direitos básicos. Não são as roupas de marca que te tornam cidadão, e muito menos um prédio cheio de lojas comerciais destinado ao consumismo puro. O que te faz cidadão é ter acesso à educação, saúde, segurança e trabalho. Com estes quatro você vai ter moradia, carro, viagens e compras no shopping.

Palavra de quem se virou nos trinta para pagar faculdade, sem arrego de pai ou governo, e aproveita a vida após conquistar cada centavo dia a dia.

Imagem: http://www.otempo.com.br/capa/economia/poder-de-consumo-da-classe-c-justifica-invas%C3%A3o-de-shoppings-1.328187

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

E a louça que é bom, nada



Nojo, nojo, nojo! Ela estava tapada de nojo. Era quase possível ver a fumaça que saía pelas suas orelhas. Ao mesmo tempo em que se parabenizava mentalmente por ter controlado a língua e ter dado uma resposta mais simples, onde apenas os inteligentes entenderiam, por outro achava um desaforo tremendo.

Batia os dedos e ria de forma debochada. Dizer como ela deveria se comportar era fácil, mas ninguém se oferecia para lavar a louça da tua casa. Aliás, não se ofereciam para nada, só ligavam para pedir, pedir, pedir.

Egoístas que viviam na volta do próprio umbigo. Vermes que se alimentavam da carne alheia, mas precisavam de ajuda para ir de um lado ao outro do corpo. Mesquinhos que tentavam tirar até centavos acreditando que levariam tudo ao túmulo como os antigos egípcios. Invejosos que se agarravam a antigas crendices por não controlar o brilho de angústia ao ver a felicidade alheia.

Ok, ela precisava se acalmar. Lembrou-se de respirar profundamente, afinal, via as criaturas uma vez na vida e outra na morte. Não, definitivamente eles não mereciam que desperdiçasse tanta energia. Só precisava ter em mente para nunca encontra-los na TPM, pois o risco de chama-los de filhos da puta era grande.

Abriu a boca e gritou. Sua mãe se assustou. O irmão caiu da cama. O que havia de errado? Nada. Agora não havia mais nada. Raiva extravasada, coração leve, língua controlada. Hora de levantar para um novo dia.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Olhe para si



Estamos vivendo em uma época onde o termo liberdade de expressão encontra vários canais. Comunidades, blogs, redes sociais, estão ai para desabafos, brincadeiras e trocas de informação. Ao mesmo tempo muitos não entendem o que estão lendo, se magoam e ofendem aqueles que não agem ou pensam iguais a eles.

Nestes casos, o fato de alguém dizer que se magoou com o que foi escrito, mesmo quando não direcionado para a pessoa, me faz pensar que ela não está bem consigo mesma. Se alguém escrever: todos os que não comem cebola precisam de aulas de culinária, eu vou rir, não irei me magoar. Não comer cebola é uma escolha minha, não gosto, tenho convicção disso, e não é um comentário que irá afetar a minha vida.

Lembro na época da pré-adolescência, quando apelidavam uma pessoa cujo tipo físico era semelhante ao meu, eu também me inquietava, pelo fato de não estar bem com o espelho. Ficava magoada, irritada, mesmo não sendo direcionado pra mim. Procurava mil defeitos nos criadores dos apelidos, sem perceber que bastava encarar aquilo que eu julgava indesejado. 

Então para aqueles que se magoam facilmente com a escrita alheia, dois conselhos: primeiro entenda o contexto da afirmação que lhe causou a mágoa (o seu humor irá influência muito na leitura, então uma nova leitura no dia seguinte é benvinda) depois olhe para si. Se machucou, é por que você fez (ou faz) algo que julga não estar certo, ou não se esforçou como deveria, ou até mesmo não agiu quando era necessário.

Antes de acusar o autor, descubra por que, ele sem querer, colocou o dedo na ferida. É uma terapia gratuita, que pode te ajudar a resolver algo que está ali lhe incomodando.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Cadeira Vazia


          Silêncio. Nem o barulho do rádio relógio influencia na harmonia da casa. Acordar. Depois de um banho calmo vou cambaleando até a mesa onde está o meu Nescau pronto e um bolo de chocolate com calda ao qual prontamente começo a namorar. Paciência. Mastigo até o leite enquanto ouço, paralelamente, a moça do tempo e minha mãe comentando a crônica do dia. Estranhamento. Olho para a cabeceira da mesa e passo direto para a bergamoteira onde os passarinhos encontram-se a bicar os frutos ainda pequenos e verdes.
            Olhos para os lados, um sentimento que não consigo identificar, não é saudade, nem solidão, parece paz. Retorno um ano antes, mesmo não dividindo o mesmo banheiro qualquer demora a mais ganhava uma batida na porta. Não havia sorriso de bom-dia e sim um engole isso de uma vez e a TV com o som a milhão. Entrou em crise quando meu avô materno foi morar lá em casa, piorou quando me formei e não me mudei, era da opinião que um diploma não valia nada e sim um marido que desse dinheiro ao sogro.
            Sua face só mudava em um momento, quando saía para jogar futebol. No princípio eram duas horas de futebol, depois quatro, vivia junto com um vizinho as gargalhadas, surgindo assim o apelido tão odiado por ele "Pit Bicha e Pit Bitoca".
Adorava verificar se o carro alheio tinha gasolina, pegava emprestado e nunca recolocava o combustível. Fazia o mesmo com a cerveja, tomava a de todos, mas nunca pagava uma rodada. Se fazia de pobre mesmo ganhando três vezes mais do que as pessoas que os rodeavam. A loucura chegou ao ponto que começou a renegar comida em casa, dinheiro para o futebol não faltava, assim como a pose de ótimo marido e excelente pai (que dizia pagar tudo para a filha quando não dava um único centavo).
Um dia foi embora, sem beijo de despedida ou um último olhar para trás. Disse que iria ser feliz.
 Se o é, não sei, nunca mais entrou em contato e o alívio que senti me impediu de procurar. Reorganizei a vida, suas feições começam a desaparecer da minha memória, assim como o timbre da sua voz, na foto apenas um estranho. Tudo foi substituído por uma paz, uma paz que me acompanha desde o momento em que sentei na cadeira antes vazia.

Crônica escrita em 2007 no curso Formação de Escritores - Unisinos

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Pelo direito individual de cada um



A Joana quer ter o direito de andar de carro, sem pegar tranqueira. Se sente injustiçada ao ser multada ou ver seus amigos receberem multas em uma fiscalização que não se preocupa em orientar. Mas sempre ultrapassa a velocidade máxima, para na faixa de pedestre, estaciona em local proibido e adora passar um sinal vermelho.

O Cláudio gosta de andar de bicicleta. Participa de todas as passeatas pelo respeito ao ciclista. Fica revoltadíssimo quando algum motorista corta a sua frente ou um amigo é atropelado. Mas adora se atravessar em vias de grande circulação, andar na contramão ou até mesmo na calçada, quase atropelando os pedestres.

Mariana depende do ônibus. Acha o valor da passagem abusiva, visto que sempre se sente uma sardinha na ida e na volta do trabalho. Mas mesmo sendo jovem e saudável, frequentemente utiliza o banco preferencial, virando o rosto quando alguém que realmente necessita se aproxima. Também adora ficar na porta, mesmo descendo no final da linha.

Valter é adepto a caminhada. Exceto em dias de chuva, procura ir a todos os lugares a pé. Fica indignado com carros, motos e bicicletas, que parecem ignorar a existência do pedestre. Mas ele nem sempre usa a faixa de segurança ou observa que o sinal está vermelho para ele.

Dona Célia sempre reclama dos alagamentos no dia de chuva. É a primeira a pedir para o neto fotografar, liga para as rádios e acha o fim dos tempos pagar um horror de imposto para não conseguir colocar o nariz na rua. Mas é a primeira a jogar os folhetos que recebe na rua no chão, não separa o lixo orgânico do seco e vota em candidato que há muito não faz nada.

O Alexandre acredita piamente que os motoristas de carro deveriam ter mais cuidado com os motociclistas, já está cansado de ver amigos e colegas quebrados devido a acidentes bobos no trânsito. Mas ele adora cortar a frente dos carros, ameaçar quebrar o espelho retrovisor ou bater e se fazer de coitado, nunca pagando pelo prejuízo alheio.

Paola é amiga dos animais e se revolta ao ver a imagem de qualquer bicho maltratado. Chora quando um dos seus cachorros de rua morre, e está sempre participando de trabalhos voluntários. Mas não respeita as regras do seu condomínio que proíbem que o bicho ande em áreas sociais. Fica ofendida quando um de seus bichos tenta morder uma criança e o pai a repreende. Tem o hábito de não juntar as fezes que os seus dois cachorros deixam a cada passeio.

João sempre quis ser pai e monta em um porco espinho cada vez que um colega bate em um dos seus filhos ou recebe um alerta do local onde está sendo atendido. Mas ele tem por hábito deixar os filhos correndo dentro dos estabelecimentos, mesmo quando a risco em relação à segurança. Deixa as crianças se jogarem no chão e gritarem, e dá risada quando são eles que machucam outros pequenos.

O que estes exemplos de pessoas tem em comum? Todos acreditam nos seus direitos. Reclamam quando se sentem injustiçados. Mas esquecem de que o seu direito acaba quando começa o do outro. Neste individualismo selvagem, onde vamos encontrar outros estereótipos, ninguém mais é santo. Em uma terra de ninguém, todos acreditam que o mundo gira em roda do próprio umbigo.

Não adianta reclamar, se nada se faz. Temos direitos, sim! Mas também possuímos deveres. Não é a toa que temos várias leis e órgãos, e nada se soluciona. Lembrando um velho ditado popular “Faça aos outros o que gostaria que fizessem a você”, uma coisa simples, mas que pode fazer uma sociedade inteira viver em paz.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Desaparecidos

Quando eu era adolescente, havia uma vizinha cujo filho (um homem adulto, com mais de quarenta anos) fugia de tempos em tempos, caminhando em direção a uma comunidade que vive perto de Brasília. Não preciso dizer que longe dela, o assunto era a nossa diversão, pois brincávamos que ele queria ser abduzido por et’s.

Nesta última semana descobri como é ter essa pulga atrás da orelha quando alguém próximo desaparece. Um colega de trabalho simplesmente sumiu. No primeiro dia achamos que ele queria dar um tempo, no segundo, achamos que ele ia ligar avisando que estava com alguma coisa, no terceiro, já tendo visto a mensagem da irmã no Facebook pedindo ajuda para encontra-lo, ficamos seriamente preocupados. No quarto dia ele foi encontrado pela polícia. Mesmo sem maiores detalhes, uma mistura de emoções atingiu quem gosta do rapaz. Pois da mesma forma que se fica aliviado em saber que a criatura está bem, depois de um tempo se fica bravo por toda a preocupação gerada.

Com toda essa história, fiquei pensando o que leva uma pessoa fugir. Embora seja um sonho normal em dias de muita pressão ou encrenca, são poucos os que levam a cabo. Simplesmente sumir, deixando a família a ver navios, os amigos com um ponto de interrogação e os concorrentes com um sorriso nos lábios.

Fugir para realizar outros sonhos? Para não ter que resolver problemas? Para se encontrar? Ou para terminar de se perder? Quem sabe descobrir os segredos da humanidade? Ou simplesmente conseguir ser verdadeiro em um mundo onde ninguém te conhece?

Eis mais uma pergunta sem resposta nesse caldeirão de dúvidas. Enquanto isso fico com uma antiga música me martelando a cabeça enquanto o sono não vem “vamos fugir, desse lugar baby... vamos fugir”.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Ah, eu não sou gaúcho

Na sala de café da manhã em um hotel em Gramado, o atendente explica para os turistas vindos, pelo sotaque, do nordeste do Brasil:

- Os gaúchos são os descendentes dos índios. Eles que usavam as facas, calças e botas que hoje fazem parte das tradições nos CTGS.
- Mas aqui são todos gaúchos, não? Pergunta o turista.
- Não – responde o rapaz – Aqui em Gramado são os descendentes de alemães, em Canela estão os gaúchos.

A conversa seguiu com informações totalmente desconexas. Quando a turma foi embora, o casal que estava ao nosso lado chamou o rapaz, que se animou no mesmo tom da conversa. Lá pelas tantas, a senhora questiona:
- Mas você não é gaúcho?
- Não, eu sou descendente de alemão.
- E onde você nasceu?
- Aqui.

Lembrei-me dos estádios de futebol, onde diferentes pessoas, de todas as descendências, raças e crenças gritam em alto e bom tom “Ah, eu sou gaúcho”. No caso do rapaz, imagino que ele não se considere nem brasileiro. O que talvez não saiba é que se ele for fazer uma viagem para a Alemanha, não será tratado como um deles, mas como um turista, pois por mais que ele negue, ele é brasileiro e gaúcho.

Fiquei imaginando o que gera essa necessidade de superioridade pobre, onde o preconceito é latente em cada palavra, onde o racismo com a cidade ao lado é claro como água. O quanto isso deve afetar o nosso dia-a-dia? A escolha dos políticos? O que deve ser melhorado? O que deve ser preservado?

São pessoas que não amam a terra que acolheu os seus antepassados, que as renegam mesmo quando tiram o seu sustento dela. A ignorância sobre a história é aceitável, mas essa negação é digna de obrigar a criatura é frequentar um curso de cidadania.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Eu nunca quis ser miss



Apesar de adorar a Barbie, nunca me identifiquei com ela. Já desejei ser a Rita Lee, a personagem da Malu Mader em Fera Radical e até a Madonna, mas nunca quis ser miss.
Ontem, quando coloquei na Bandeirantes esperando assistir o CQC, me deparei com um desfile de moças de várias partes do mundo com esse sonho: o de receber o título de mulher mais bela do mundo.
Mas achei algumas bem padronizadas, parecendo mais os cabides de passarela (vide magreza da representante dos Estados Unidos), do que beldades que já inspiraram até nome de torta, como a Martha Rocha.
Em todo caso, entre um meio sono, meio acordada, acabei torcendo pela simpática Leila Lopes, representante de Angola. Uma menina de sorriso lindo, com um jeito simples, que parecia perdida na calda do vestido, mas cheia de alegria ao falar. Curiosamente ela foi à vencedora. O que esse resultado significa? Eu não sei, alguns vão dizer que é a globalização da beleza, o fim dos preconceitos. Mas o interesse sobre o assunto acabou junto com essa crônica, pois continuo não querendo ser miss (mesmo após ter lido o pequeno príncipe).

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Robertinho

Roberto descascava a laranja lentamente. Tinha consciência plena que estava fazendo hora, mas desde que Roberval havia virado seu subordinado no trabalho, seus instintos mais primitivos haviam aflorado. Durante todos os quarenta anos de vida achara que essa história de antipatia era coisa de mulherzinha, mas nas últimas semanas descobrira que possuía um ódio mortal pelo cidadão.
Não que Roberto fosse grande coisa, ele era um homem comum, com pretensões comuns. Seu objetivo principal era realizar um bom trabalho e receber o seu salário no final do mês. As seis da tarde, ele ia caminhando para casa, onde ajudava sua esposa com a janta e brincava um pouco com os filhos.
Roberval era um aposentado que resolvera voltar à ativa. Mais perdido que cusco em tiroteio, se arrastava pelos corredores, colocava a mão no ombro como se fosse íntimo de todos e atrapalhava reuniões para dizer asneiras. Um bolão já havia sido criado, onde muitos acreditavam que ele nunca havia trabalhado na vida, outros diziam que ele era um ator contratado para testa-los. Mas a vítima principal era Roberto, ou Robertinho como Roberval o chamava.
Cada vez que Roberto escutava a palavra Robertinho, seus olhos arregalavam, as mãos formigavam e o coração acelerava. Ele era um homem com um metro e oitenta de altura, chefe de uma equipe com vinte homens. Mesmo sendo mais jovem que Roberval, sentia necessidade de respeito. E era por isso que o inho lhe fervia o sangue nas veias.
Inventou várias histórias, deu inúmeras indiretas, mas nada, absolutamente nada resolvia aquela situação. Até aquela tarde na copa da empresa.
Roberto estava partindo sua laranja ao meio quando Roberval entrou e com um sorriso nos lábios pronunciou “Robertinho, estou com um probleminha com o rapazinho do almoxarifado”.
Os detalhes se perderam entre as lendas urbanas que circulam nos corredores de qualquer empresa. Mas o fato é que o Nestor, rapaz do almoxarifado, sabendo que Roberval iria fazer fofoca a seu respeito, correu para a copa conversar com Roberto antes que o dito o fizesse e se deparou com o chefe cortando a língua do velho e gritando “Está doendo a linguinha, né Robervalzinho?”.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Leite Condensado



Você malha pelo menos uma hora por dia, come frutas e saladas, controla todo o carboidrato. Mas o ponteiro da balança nem se mexe. Esforça-se para tomar dois litros de água, e morre de medo do chefe lhe chamar para perguntar se tem problema na bexiga, mas as pernas continuam grossas como a de uma dançarina de funk.

Às vinte e três horas já está na cama, para garantir o mínimo de sono. Fica ligada em todas as dicas de boa saúde. Na TPM até arrisca uma dieta a base de sopas. Seu armário de cozinha é recheado de produtos gritando a palavra light. Mas a barriga ainda não se parece com o tanque de lavar roupa.

Fecha as revistas furiosas, pronunciando como se fosse um mantra que nenhuma das modelos é bonita como aparecem nas fotos. Lança maldições ao photoshop e afirma sem convicção nenhuma que deixara de seguir todos os padrões de perfeição da sociedade moderna.

Ao terminar de comer a mousse de chocolate, conclui que a culpa de tudo isso é do inventor do leite condensado.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O dia em que desisti de ser gremista



Nunca pensei que esse dia chegaria. Adorava assistir os jogos no Olímpico, sentindo no ar toda a vibração e encantada com a beleza que só a torcida gremista é capaz de proporcionar. Por questão de envolvimento, sofri muito mais com o segundo rebaixamento e foi aos gritos que festejei a grande conquista na batalha dos aflitos.
No ano passado estávamos aos trancos e barrancos no brasileirão, quando um herói retornou ao solo gaúcho para colocar o então quase rebaixado Grêmio na Libertadores da América. Mas o presidente eleito não queria grandes títulos, o único tri que ele parece buscar é o da vergonha e pagação de mico. Primeiro foi à correria atrás de um dos jogadores mais mercenários da história, cujo passado no Grêmio o impede de constar até na calçada na fama, sendo mais lembrado pelo seu golpe do que pelos seus gols.
Enquanto era ensebado no meio de um leilão, perde-se o goleador do time. Só que nem a paixão de Renato nem a dos torcedores foram suficientes para fazer os jogadores serem eficientes, por não restar mais respeito, nosso técnico ídolo se foi, e um desconhecido assumiu o lugar. Mas os jogadores continuavam os mesmos, e os resultados também. Com isso se trocou um dos dirigentes. Como ele não faz gol, não houve mudanças.
Até ai, tudo bem. Estava sofrendo, xingando e reclamando. Aguentando as gaitadas e sentindo calafrios ao ver a tabela do Brasileirão. Mas hoje, ao ver o anúncio oficial de que o Celso Roth é o novo técnico do Grêmio não me resta outra opção além de desistir. Chega! Errar é humano, repetir o erro é burrice e o Odone conseguiu encher o copo da minha paciência. Se o único tri que ele busca é o do rebaixamento, não conte com o meu apoio ou dinheiro.
A partir de agora vou torcer para todos os times gaúchos, inclusive o coirmão, não vou mais me estressar ou gastar dinheiro com camiseta e ingresso de um time cujos dirigentes não possuem ambição, não planejam o futuro e não sabem o que fazem ali.
Se um dia pessoas sérias e realmente apaixonadas pelo tricolor gaúcho da maneira que este merece assumirem o seu controle, talvez eu repense essa decisão. Mas hoje não.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Amy e os adolescentes de Porto Seguro



Uma das melhores vozes desse século se calou no último sábado. Entre a maldição dos vinte sete anos e a lembrança dos seus excessos, Amy Winehouse teve sua morte divulgada em todos os canais brasileiros, alguns com homenagens, outros puramente jornalísticos.

Mas o que Amy tem haver com adolescentes em Porto Seguro? Domingo li uma reportagem sobre o que estes últimos andam fazendo em suas viagens com a turma de colégio a uma das cidades mais animadas que já fui. Conheço Porto Seguro. É um lugar recheado de música e animação, divertido por si só, sem precisar encher a cara ou fazer sexo oral a beira mar.

Como Amy, estes jovens gostam de testar seus limites. Mas será a morte um limite a ser testado? É necessário chegar nesta fronteira? Qual a graça de ir fazer um passeio e ao retornar para casa ter que fazer uma série de exames por não lembrar com quem andou ou o que fez por excesso de álcool? Uma gravidez indesejada é o preço adequado a se pagar por sete dias diversão? Uma AIDS fez tudo valer a pena?

Quem sabe se os pais tivessem deixado Amy no rehab mais tempo, sua fama ficasse mais ao redor de sua belíssima voz do que do seu comportamento bizarro. E quem sabe se os pais brasileiros ensinassem o significado da palavra respeito, talvez os seus filhos tivessem mais personalidade para aproveitar a vida como seres humanos e não como animais soltos na floresta.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Encarangada


Nasci em janeiro, em pleno o verão de um país tropical, sou apaixonada por praia, sorvete e suco de melancia bem gelado. Acredito que não exista nada melhor do que caminhar no final da tarde em um parque para relaxar. Saladas diversas nas refeições, uma calça e uma blusa já me deixam vestida e pronta para sair.

Mas eu também moro no Sul, onde no inverno um vento minuano machuca a pele ao passar. Em um dia como hoje, as pontas dos dedos há muito deixaram de ser sentidas. Existe uma necessidade imensa de comida quente. Resisto beber qualquer coisa, só para evitar ir ao banheiro. Roupas e mais roupas me apertam, impedindo qualquer movimento de maior intensidade.

Não posso dizer que sai de casa ao amanhecer, pois a noite ainda dominava o céu quando coloquei a ponta do nariz para fora da porta. Senti medo do vento que balançou o meu carro ao andar. E desejei mil vezes ter ganhado na mega-sena acumulada. Mas ao olhar para o lado e ver crianças com roupas fininhas e pessoas encolhidas embaixo de jornais, me arrependo de minhas reclamações. Por mais difícil que seja ir trabalhar, estou indo de forma quentinha, e tenho um lugar protegido para voltar.

Só não vou aceitar que alguém me diga hoje que gosta de inverno. Pode debochar que o meu time perdeu, olhar de cara feia para o meu dedo machucado e até mesmo dizer que pareço um embrulho de natal. Mas dizer que este frio é uma delícia, eu não admito.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Sonhos reais

Após terminar a leitura de A Chinela Turca, me lembrei de um sonho que tive no último domingo. Feriado de quatro dias, alarme desligado, sono manhã adentro, e de repente estou caminhando pelas ruas de Porto Alegre atrás de eventos literários. Ao passar por lojas fechadas, onde as vitrines estavam escondidas por cortinas de ferro, minha mãe olha pra mim e diz “Pena que hoje é domingo e o feriado já está acabando”.
Imediatamente abro os olhos, caindo da cama e procurando o celular desesperadamente para descobrir o quanto estava atrasada para o trabalho. É quando me dou conta que naquela manhã ainda era domingo.
Não foram raros os sonhos que me fizeram chorar, sentir calor, frio e até medo. Já assisti filmes que só existem na minha cabeça e tive conversas inesquecíveis com pessoas que nunca conheci. Em alguns poucos casos extremos, cheguei a tomar uma decisão com base no meu inconsciente, mas ainda não os levei suficientemente a sério para pagar alguém que os interprete.
Desconheço se o fato é verídico, mas dizem que se impedirem alguém de sonhar, a pessoa morre aos poucos. É algo meio duvidoso, já que não se sabe se é o fato de não sonhar ou o de interromper tantas vezes o sono a verdadeira causa da morte.
Em todo caso, se aparecerem mais de três banheiros no mesmo sono, não duvide do sinal, abra olhos e levante-se já, ou o cenário irá mudar para o rio mais próximo.