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segunda-feira, 18 de maio de 2015

Escravo

O céu estava azul.
Não aquele azul alegre, típico das tardes de verão.
Era um azul encolhido, com nuvens escuras sobrecarregando a sua visão.
Não eram nuvens de chuva.
Eram nuvens de frio.
O mesmo frio que lhe fazia doer os dedos.
Mesmo cheia de casacos, o vento lhe abatia a alma.
Pela segunda vez viu o mesmo homem deitado no chão. As sete ele estava envolto a cobertores velhos e papelão.
Ao meio-dia estava sem nada, aquecido pelos poucos raios de sol que o iluminavam.
A imagem curiosamente não era digna de pena. Pois enquanto ele estava relaxado, aquecido pela liberdade.
Ela estava compactada, sacrificando a vida por um dinheiro que só a gelava.

quarta-feira, 5 de março de 2014

A Serra

Serrava devagar, como se não tivesse pressa.
Serrava rapidamente, como se o mundo fosse acabar.
Serrava sem vontade, por não ter vontade de se esforçar.
Apenas olhava a serra, por não decidirem de que lado serrar.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Fome

Quando o seu olhar encontrou o dele, sentiu uma fome em seu corpo; sem nenhuma troca de palavras se aproximaram e se beijaram. O sabor da boca fez sua ânsia aumentar. Foram para um motel e transaram loucamente, uma, duas, três vezes. Ele jazia cansado, mas ela continuava sentindo uma fome cuja razão lhe era desconhecida. Começou a lamber o corpo dele, e isso fazia o seu coração pulsar mais forte; sem pensar, começou a mordê-lo e, quando sentiu o gosto de seu sangue, descobriu a forma de se saciar.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Calmante

Ele observou as lágrimas que escorriam do rosto da moça, mas não conseguia entender o que ela dizia, só as palavras da Voz ecoavam em sua cabeça lhe dizendo “Chegou a hora. Veja, ela está implorando por sua libertação”. Com um golpe rápido, passou a faca pelo pescoço da moça. No instante em que o corpo desabou, a Voz lhe disse “Agora podemos dormir em paz”.

domingo, 22 de abril de 2012

Cartão

Tudo começou na empresa: para entrar tinha que usar um cartão. Um tempo depois o uso do cartão foi ampliado para entrada na sua sala, depois banheiro. Um dia o porteiro do edificio em que morava anunciou que a tecnologia havia chegado, e as chaves foram substituídas, assim como tudo o que lhe cercava. Um dia não acordou, havia trocado o cartão da respiração pelo de ligar a máquina de lavar roupas.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Mini-Conto: Carta a minha filha*

Sei que as coisas não estão conforme os nossos sonhos. Perder a confiança nos que amávamos nos faz cegas tateando entre a escuridão. Mas lembre-se: por mais que a desilusão nos atinja, estamos juntas, a nos aquecer com a única coisa que importa: a nossa pequena família.
Então levante a cabeça, seque às lágrimas e junte os seus livros. Todo dia é um recomeço e o nosso bate na porta todos os segundo."
*O título é uma brincadeira com o livro "Carta ao pai" de Franz Kafka.