Frascos!!!!
Frascos pelos armários, pelos sofás, em todo o lugar. Janelas fechadas porque naquele dia uma aranha havia lhe dado uma picada em seu braço. No verão de 40 graus, ela não nos levava ao parque porque deveria ficar deitada e tapada com dois cobertores devido a um novo vírus. Bolo?! Sem tempo. Necessário entrar na fila para marcar consulta na primeira hora da manhã. Seus carinhos vinham como uma caixa de comprimidos vazios, não surtia benefício algum para quem o procurava, e também não adiantava ler a bula, pois não havia como ministrá-la.
As férias eram misturas de solidão e tortura, não conhecia histórias, nem brincadeiras, muito menos
cafunés. Soberano o rádio sintonizado na
Farroupilha com notícias trágicas e jornais baratos anunciando a doença da moda. Sentada na guarda de um grande sofá, olhando pela janela, restava-me atormentar a prima mais nova, puxando-lhe os cabelos e dizendo para não gritar, isso causaria um ataque cardíaco na criatura.
Ela acalentava um ódio mortal pelo marido, único que a fazia ter atitudes enérgicas. Durante a convivência, o culpou por um suposto câncer de mama. Ao despejá-lo, o culpou pela dor de garganta matinal e de estar ficando cega (apesar de enxergar um letreiro de
ônibus a distância). Mulher de egoísmo estranho, talvez nem fosse humana: olhar de bicho. De gestos frios com a filha mais velha, zelava um baú, com as roupas de um filho morto por doença de verdade.
A casa virou um apartamento, minha avó não faleceu, entretida com o excesso de
sintomas. Sua
bombinha para asma esguicha como aerossol. Procuro em cada vizinha uma senhora bondosa com vontade de me
adotar. A saudade do que não fui não deixa de ser uma doença.
* Texto escrito na oficina de
crônicas com o
Fabrício Carpinejar - 2007.