domingo, 17 de outubro de 2010

Capítulo Onze

Belo Horizonte, Cidade Jardim

– Meu Deus – exclamou Antônio – a mulher era realmente má.

– Madame Elvira? Você ainda não viu nada. – espreguiçou-se Vivian – Amanhã vamos remover os armários na cozinha. – disse desligando o notebook.

– Na cozinha? Mas porque Vivian?

– Quero descobrir que maldição à velha bruxa jogou na minha mãe para ela morrer daquele jeito.

– Você é quem sabe. Aonde iremos dormir?

– Na casa dos empregados.

– Você está brincando? Com a quantidade de quartos confortáveis que tem nessa casa?

– Você quer descobrir a razão de ninguém morar aqui?

– Você acha que ela jogou alguma praga?

– Depois do que acabamos de ler, você tem coragem de dormir aqui?

– Pensando por esse prisma... não.

Vivian riu. Toda vez que Antônio começava a falar difícil era porque as suas pernas tremiam. Desligou todas as luzes, deixando apenas as da rua acessa. Ao abrir a porta da casa dos empregados, velhas lembranças tomaram conta do seu coração. Caminhou até a cozinha e encostada em uma das mesas, colocou os braços em sua volta. “Mãe que falta você me faz.”

– Onde fica o banheiro? – gritou Antônio.

– Você está na sala? – respondeu enquanto enxugava as lágrimas.

– Sim.

– Está vendo o corredor?

– Estou.

– Primeira porta a direita.


Seguiu em direção a sala, passou a mão pelas paredes, com um suspiro, caminhou em direção ao corredor e se dirigiu a última porta. Ao abrir, estava tudo lá. Sentiu-se com dez anos, fugindo do banho enquanto a mãe ainda atendia os patrões.

– Onde irei dormir?

– No quarto do Miguel.

– Miguel?

– O antigo motorista da família.

– Vocês moravam com um homem aqui dentro?

– Miguel tinha mais de sessenta anos e era um senhor adorável. Doutor Adriano tinha pena dele. Só o chamava para trajetos curtos. Morreu um ano depois de seu Carlos e Madame Elvira.
– Ele não chegou a se mudar então.

– Não. – fazendo um leve gesto de negação com a cabeça, para afastar os pensamentos, Vivian mudou de assunto – Pegue as nossas malas no carro, por favor? Na preta estão lençóis e toalhas limpas. Assim podemos tomar um banho e arrumar nossas camas.


Vivian tomou um banho quente e demorado, por um momento imaginou a mãe lhe esperando, para trançar os longos cabelos. Mas nem a sua mãe, nem os cabelos estavam mais lá. Colocou a longa camisola e um roupão felpudo. Quando saiu do banheiro, sentiu um cheiro gostoso vindo da cozinha. Sorriu, antecipando o prazer de uma refeição feita por Antônio, que era um excelente cozinheiro.

Foram dormir cedo. Ambos estavam cansados da movimentação. Após se aconchegar nas cobertas, Vivian sentiu o cheiro de sua mãe, fechou os olhos e dormiu com ela em seus pensamentos.

Um barulho forte ecoava da casa. Vivian sentiu que braços quentes a protegiam. O que estava acontecendo? Notou que seus pés estavam sem as meias e sua camisola não era mais tão longa e quente. Abriu os olhos e encontrou os de sua mãe. Observou o seu rosto, emoldurado pelos cabelos pretos soltos, sua boca estava cerrada e a testa franzida. Vivian olhou para as suas próprias mãos. Tinha cinco anos outra vez.

– Venha. – disse a mãe estendendo a mão – Você precisa ver isso.

Vivian estendeu a mão e foi puxada para fora da cama. Catarina a levou até a janela e se abaixando, puxou de leve as últimas persianas.

– Olhe!

A casa estava toda iluminada, as venezianas das janelas abriam e fechavam, batendo com força nas paredes.

– Não entendo. Eles não estão em casa mamãe! Por que você não fechou as janelas e apagou as luzes – e apontando para a casa – ela está toda iluminada.

– Não está querida. Olhe para a janela do canto esquerdo.

– A janela do quarto de madame Elvira? – Vivian olhou novamente – É a única janela fechada.

– Sim, a janela do quarto que você limpou. É você que irá libertar essa casa, Vivian. Não esqueça disso, nem quando se sentir cansada. Você tem uma missão e não pode abandona-la. – Catarina se levantou e pegou Vivian no colo – Agora, volte para a cama. Você terá um dia agitado amanhã.
Com cuidado, Catarina acomodou Vivian no lado direito da cama e colocou um urso em seu travesseiro. Cantando músicas antigas, mexeu nos cabelos da menina até que essa pegasse no sono. A única coisa que se lembrava é da mãe lhe dizendo que a amava.


A forte luz do sol acordou Vivian, que continuava deitada do lado direito da cama com um urso a lhe fazer companhia. Instintivamente tocou na camisola e notou que era a mesma grande e felpuda. Olhou para as mãos, elas tinham sessenta anos outra vez. E suas meias estavam, em seus pés. Mas a sua mãe também estivera.

Levantou e olhou para a janela, as persianas estavam levantadas. Eram seis e meia da manhã, hora em que sua mãe deixava o sol entrar para ela acordar e ir ao colégio.

– Não se preocupe, mãe. Não esqueci da minha missão.

Vivian sabia que tinha que ser rápida. Não tinha muito tempo para encontrar os herdeiros da maldição. Mas hoje ela iria cuidar da casa, começando pela cozinha.


Os armários em madeira escura estavam por toda a cozinha e eram pesados. Vivian e Antônio passaram o dia retirando louças de dentro deles, desmontando armários e atirando o líquido amarelo nas paredes e nada. Só faltava a peça que servia de depósito de alimentos. Não havia nada lá. Apenas a madeira das prateleiras. Antônio começou a mexer, quando notou que, em um dos lados, elas eram mais frouxas. Começou retirar uma a uma, até a parede se mostrar por inteiro.

– Aqui está ela. – disse sem olhar para Vivian.

Sem responder, Vivian atirou o líquido amarelo e as palavras apareceram:

“Skas duzlios le bys a humis D l nuzPas a tulil”

Vivian repetiu o procedimento do dia anterior com mais dificuldade. Suas mãos tremiam ao ver os símbolos que marcaram parte da vida de sua mãe. Demorou o dobro do tempo para decifra-los. Cada significado encontrado era uma punhalada no seu coração.
– Negra Maldita seu corpo irá pagar por suas palavras de traição – Vivian suspirou – isso explica tudo Antônio.

– A cegueira da sua mãe não foi algo natural?

– Não, meu primo. Quando minha mãe avisou madame Cristina que eles deveriam se mudar, seu cabelo branqueou.

– Por isso a tia Catarina não comentou nada quando o doutor Adriano começou a definhar?

– A princípio ela não sabia. Quando nasceu o Jonas, o caçula, ela teve certeza. Mas teve medo. Eu era uma adolescente e ela temia o que podia acontecer com ela. Mas madame Cristina também percebeu e parou de engravidar. Infelizmente, era tarde demais para doutor Adriano.
– Então a perda nos movimentos da mão esquerda de sua mãe foi natural?

– Não. Quando os médicos do doutor Adriano anunciaram sua morte, madame Cristina começou a providenciar o enterro dele em Recife mesmo, uma hora depois dela fazer o acerto com a funerária, Cezar, o primogênito, ficou com quarenta graus de febre. Minha mãe não se agüentou e pediu para madame Cristina enterra-lo em Belo Horizonte, no jazigo comprado por madame Elvira. Mesmo com lágrimas, madame Cristina o fez, depois de tudo acertado, a febre do menino foi embora, mas minha mãe não conseguia mais mexer com a mão esquerda.

– E foi assim que eu acabei nascendo perto de vocês. – Antônio brincou, tentando aliviar a atmosfera pesada.

– Sim. Mamãe não conseguia mais realizar as tarefas domésticas, assim madame a colocou como uma administradora da casa e a encarregou de contratar outra pessoal. Mamãe chamou tia Madalena, que um ano depois se casava com o jardineiro Elias e dois anos depois dava a luz a um menino chamado Antônio. – concluiu com um leve sorriso.

– Esse seu formoso assistente. – Antônio gracejou, sentindo-se satisfeito por desfazer um pouco da tensão de Vivian.

– É verdade. Obrigada, Antônio. Sei que é complicado deixar a família e os negócios pra trás, mas sem você eu não conseguiria.

– Não diga bobagens. Você é minha família também. Além do mais, Miriam pode cuidar da loja.

Encerrados os trabalhos daquele dia. Vivian deitou a cabeça no travesseiro. “Estou muito velha pra isso” suspirou. O sono logo veio, assim como a presença forte e quente de sua mãe.

– Acorde e veja – ela lhe disse.

Novamente a casa estava toda iluminada, com as janelas batendo. Exceto o quarto de madame Elvira e a cozinha.

– Amanhã será mais fácil mamãe. E o trabalho será mais rápido.

– Você não precisa ter cuidado com os bens materiais. Seu tempo é pouco. Várias vidas dependem disso.

Vivian com o olhar fixo na casa, apenas concordou com a cabeça. Apesar do corpo de criança, sua cabeça permanecia com sessenta anos, e o seu conhecimento de vida dizia que nesse ponto sua mãe estava errada. Se quebrasse qualquer coisa antes de libertar todas as peças, daria mais força ao espírito e as maldições de madame Elvira.


Quando amanheceu, Vivian despertou com um sentimento de urgência. Desejou ter os quarenta anos de Antônio, mas agradeceu a Deus poder contar com sua ajuda. Foi até a janela onde se via toda à parte de trás da casa.

“O dia terá que ser definitivamente longo” pensou.

domingo, 10 de outubro de 2010

Capítulo 10

São Paulo, Via Dutra

João não pensou. Simplesmente virou toda a direção para a direita. Ainda teve tempo de ver um par de olhos brilhantes antes de frear com força. Sentiu o corpo ir para frente e ser empurrado de volta ao acento pelo cinto de segurança. “Que merda. Só me faltava isso” pensou , no momento em que um grande caminhão passou buzinando. Mais por reflexo do que por preocupação, olhou para a pista procurando um corpo. Nada. “Estou vendo coisas” resmungou ao notar um corpo estendido no acostamento, a poucos metros do seu próprio carro.

Doca jamais conseguiria explicar o que aconteceu, lembrava-se apenas de que estava pegando a sua camiseta quando viu os faróis em sua direção. Virou a cabeça para a esquerda e viu um gato de olhos verdes. Sem pensar muito, foi em sua direção, sentiu uma pequena batida e agora, quando abria os olhos, via os mesmos faróis e o chão. “Será que eu morri?”

– Puta que pariu. Meu carro! – resmungou um homem alto, de camisa pólo azul, calças sociais, olhando para a lataria do carro esporte.

– Qual é, mermão?! Quem deveria estar falando palavrão sou eu, estendido aqui no chão.
– O que você estava fazendo no meio de uma pista... de uma pista de BR, seu imbecil? – pela primeira vez João olhou realmente em direção a voz. O que viu foi um menino pequeno, sozinho, caído no chão com o braço sangrando.

Quando virou a direção, João acreditava piamente estar se livrando do louco da rodovia e deixando a responsabilidade para o caminhoneiro. Olhou em volta. Não havia nenhum adulto por perto, nem testemunha. Com a velocidade que o caminhão passou, com certeza não havia anotado a sua placa. Por que não seguir viagem e deixar o garoto ali, sozinho?

Doca estava com medo. Suas costas doíam, aliás, tudo doía. Havia raspado um dos braços e batido a cabeça. A bolsa de sua mãe estava aberta com tudo jogado na volta. Sua sacola com roupas estava no meio do mato. Pensou em levantar, mas resolveu esperar o homem que olhava ir embora.

João começou a caminhar lentamente em direção ao garoto. “Não posso ser tão covarde. Pego ele, largo em um hospital público e deixo uma grana para ele pegar um táxi. Tudo resolvido”. Olhou embaixo do pneu para ver se tinha atropelado o gato também, mas não havia nada. Quando levantou a cabeça viu uma conhecida pedra triangular no chão. Instintivamente, voltou até o carro e pegou o seu casaco. A que estava o chão era outra.

“Impossível, é muita coincidência”. Um trovão iluminou o céu e sem pensar, João começou a recolher as coisas do menino.

– Hei, não mexe ai não. – reclamou Doca – Isso é meu e nenhum 171 vai levar.
– Vou levar sim, essas coisas e você até um hospital. – gritou João – Você tem idéia do que fez? Tem?

– Desculpa. Eu me distraí com os aviões.

– Da próxima vez vá até o aeroporto para se distrair com eles e não no meio da Via Dutra. – suspirou – Você consegue se levantar sozinho?

Doca tentou se mexer, mas não conseguiu ter força suficiente.
– Acho que estou com câimbra na perna direita. Não consigo mexer sem sentir dor.

– Tudo bem. Não se mexa. Além dessa bolsa, você tinha mais alguma coisa?

– Uma sacola do Flamengo com as minhas roupas.
João foi até o mato próximo ao acostamento e logo encontrou.

– Essa mochila?

– Sim.

João recolheu tudo e colocou no banco da frente. Levantou o seu banco e abriu bem a porta. Foi até Doca e sem uma palavra, o pegou no colo. Caminhou rapidamente até o carro e o deitou no banco de trás.

– Vamos para um hospital. Procure não se mexer, ok?

– Ok. – respondeu Doca fechando os olhos. O carro tinha um cheiro bom e aquele banco era mais confortável que sua própria cama.

Se fosse honesto, iria admitir que nunca havia tido uma cama de verdade. Sua mãe ia conseguir uma em seu novo emprego. Mas Deus não quis.
– Como você se chama? – João o trouxe para a realidade.

– Hein?!

– Seu nome, qual o seu nome?

– Eduardo. Mas todos me chamam de Doca.

– Muito bem, Doca. Eu me chamo João. – olhando Doca pelo retrovisor perguntou - E os seus pais?

– Não tenho pais. Estou sozinho.

– Você fala chiado. É do Rio?

– Sou.

– E como você chegou até aqui?

– Pegando carona, caminhando...

– Nossa... você deveria estar desesperado!

– Estava.

– Você veio caminhando?

– Quando não conseguia carona...

Doca emudeceu e João resolveu prestar atenção no trânsito. Sem saber a razão resolveu levar o garoto para um hospital no Morumbi. Sabia que ia ficar com ele em sua casa. Nunca havia acreditado em coincidências, mas desta vez, o destino parecia estar lhe pregando uma peça.
Conforme andavam, as ruas se tornavam mais iluminadas, prédios mais altos surgiam. “Estou entrando em outro mundo” pensou Doca, enquanto lia o nome da rua: Avenida Albert Einstein.
João estacionou o carro em um prédio grande, com uma entrada envidraçada.

– Espere um pouco. – disse antes de sair.

Logo depois, João apareceu com um rapaz todo de branco que o retirou com cuidado do carro e o colocou na maca.

– O senhor não deveria ter removido ele da estrada – recriminou o mesmo rapaz – se ele sofreu algum dano mais sério na coluna, isso pode ter sido fatal.

– Como ele estava sentindo câimbra na perna, achei que não havia afetado a coluna. – disse João levantando os ombros.

– O Senhor é médico?

– Não, e você é enfermeiro, não?

Na entrada, Doca descobriu o lugar onde estava: Hospital Albert Einstein. Enquanto lia o letreiro, a maca foi em uma direção e João em outra. “Minhas coisas” foi à última coisa que Doca pensou antes de entrar em uma sala gelada.

– Boa noite, Senhor – sorriu a recepcionista – Enquanto o menino é levado para o raio X, pode preencher essa ficha?

– Sinto muito, mas sei apenas o primeiro nome do menino: Eduardo.

– Mas.. quem vai pagar o atendimento?

– Acredito que isso não seja uma preocupação, quando se trata do filho de Julios Galdos?

– Não, com certeza não, senhor – nervosa a moça guardou a ficha – Vamos esperar o menino sair dos exames para pegar os seus dados.

João saiu e foi sentar na sala de espera. Pelo menos isso o seu pai havia deixado. Atendimento vitalício após polpudas doações. Para seu alívio, pelo menos em um lugar, o seu nome ainda tinha poder.

Uma hora depois, Doca apareceu com o braço esquerdo enfaixado, alguns curativos no rosto e nas pernas. Havia perdido um dos seus chinelos e por isso caminhava puxando uma das pernas.
– Tudo bem? – perguntou para o médico que o trazia.

– Tudo em ordem com o rapazinho aqui. Ele teve uma luxação no braço esquerdo, mas em duas semanas estará pronto para uma nova aventura.

– Menos radical, eu espero. – disse João

– Com certeza, não é Doca?

– Sim, Dr. Luís. – pela primeira vez Doca sorriu – Muito obrigado.

– Nessa sacola – o médico apontou para o pequeno embrulho que Doca carregava com cuidado – estão os remédios que ele deve tomar. Aqui está a receita. – entregou na mão de João para que ele pudesse ver – esses dois primeiros ele deve tomar de oito em oito horas na primeira semana. Na segunda, muda para esse terceiro que é de doze em doze.

– Certo.

Doca prestou a atenção. Sabia que João iria larga-lo na primeira esquina. Mas não se importava. Já estava em São Paulo e agora podia começar a cuidar de sua própria vida.

– Obrigada, Doutor. – João apertou a mão do médico. – Agora tenho que levar esse garoto para o interrogatório da recepcionista.

– Boa sorte e cuide-se, Doca. Não quero ver você aqui tão cedo – piscou – a menos que você sinta dor nesse braço.


Despediram-se do médico e caminharam em silêncio até a recepção. A moça olhou para as roupas de Doca com um misto de pena e nojo, mas não ousou falar nada na presença de João.
– Muito bem. Qual o seu nome completo? – ela começou

– Eduardo Oliveira.

– Nome da sua mãe?
– Jussara Oliveira.

– Do seu pai?

– Josias.

– Oliveira?

– Não. Só Josias.

– Qual o sobrenome do seu pai?

– Ele não tem. – a recepcionista arregalou os olhos – ele não era registrado. – explicou com um olhar resignado.

Josias é morador da favela Porto Seco, no Rio de Janeiro. Sua busca foi extremamente difícil, pois ele não foi registrado. Andou por várias casas, seu último paradeiro antes da favela, foi um orfanato de irmãs carmelitas. Vive sozinho e é traficante de drogas.”

As palavras escritas no relatório da agência de detetives surgiram como um raio na mente de João. Era mais do que coincidência. Como dizia a sua mãe “algo grandioso iria acontecer”.

– Qual a sua idade? – a recepcionista continuava com a sua bateria de perguntas

– 10.

– Onde estão os seus pais?

– Mortos. – Doca respondeu com uma naturalidade que fez a recepcionista pigarrear antes da próxima pergunta.

– E onde você mora?

Doca pensou. Não tinha mais endereço. Mas ela não precisava saber, provavelmente nunca mais se veriam.

– Porto Seco.
– Onde é Porto Seco?

– No Rio de Janeiro.

– E a rua, o número?
– Quadra 12, barraco 15.

– Barraco? – a moça estava cada vez mais surpresa.

– Coloca o meu endereço – disse João – ele vai para a minha casa mesmo.

– Vai?

– Vou? Perguntaram Doca e a recepcionista.

– Vai. Você não pode encerrar isso? Ele já foi atendido, o Doutor Luís já deve ter uma ficha dele. Qualquer coisa, vocês ligam para esse número – estendeu um cartão.

– Certo. – ela respondeu, grampeando o cartão junto à ficha – Vocês estão cansados. Podem ir.

– Eu vou mesmo para a sua casa? Perguntou Doca a caminho do carro.

– Vai. – respondeu João, enquanto procurava a chave no bolso da calça. Apertou um botão e com um barulho, as portas destravaram – Agora você pode sentar. Entre no lado do caroneiro.
Doca correu para o outro lado. Quando abriu a porta, viu João colocar suas coisas no banco traseiro.

– Não esqueça de colocar o cinto. - João ligou o carro, com os olhos no retrovisor, colocou o carro lentamente em movimento.

Doca viu João pegar a carteira e entregar uma nota para o rapaz que liberava a saída dos carros. Ao sair do estacionamento, dobraram a direita. Conforme passavam pelas ruas, era possível observar as pessoas com seus passos apresados, ou esperando em paradas de ônibus. Prédios iluminavam a cidade como se fosse dia.

– É nessa rua. – Avisou João, trazendo Doca de volta a realidade.

Doca começou a procurar o nome, para saber onde se encontrava. Avenida Giovanni Gronchi informava a placa azul. Em frente a um prédio, onde se lia The Residence Flat, João apertou um botão em uma pequena caixa preta e um grande portão se abriu. Chegaram ao sub-solo, onde João estacionou o seu carro.

– Você mora aqui?

– Está impressionado? Se você visse a casa da família então. – sorriu João.

– É porque você não conheceu a casa da minha família.

João o encaminhou até os elevadores e subiram até o décimo terceiro andar. Ao abrir a porta. Doca se deparou com um lugar que misturava luxo e escuridão. Sua mãe sempre dizia que os ricos não sabiam iluminar suas vidas. Doca sempre a contrariava, dizendo que um dia ela seria muito rica e a sua casa, a mais iluminada de todas.

Enquanto Doca tomava banho, João separou uma roupa limpa para o menino e pediu um lanche. Quando entrou na sala, Doca se deparou com um prato de massa e refrigerante. Por um momento, pensou na razão de não sentir medo daquele homem. Mas algo lhe dizia que podia confiar naquele engomado.

– Então, como está?

– Delicioso. – respondeu Doca de boca cheia, observando João comer uma comida esquisita. – Isso é bom?

– Isso é sushi. Outro dia você experimenta. Já viveu aventuras demais para um único dia.

– Onde eu vou dormir?

– O sofá vira uma cama. É nele que você vai dormir.

– Tá bom.

– Não se preocupe. Ele é confortável.

– Não estou nem um pouco preocupado. – Doca deu de ombros. – Imagino que ele dê de dez a zero na minha ex-cama.

– O que a sua mãe fazia?

– Limpava a casa de gente cheia dos contos como você.

– E o seu pai?

– Fazia dois oito um. – respondeu enviando outra garfada de massa na boca.
– Dois oito o que?

– Ele era traficante – terminou de engolir e completou – dos bons, viveu até os cinqüenta, coisa que neguinho nenhum consegue. Mas um língua nervosa acabou com ele.

– Língua nervosa? Sei...

– Um dedo-duro. Depois que mataram o meu pai, ele saiu no pinote, e apareceu morto logo depois.

– Me diz uma coisa Doca. Onde você conseguiu aquela pedra triangular?

– É isso que você quer? – Doca levantou num saldo, derrubando molho no piso. – Ela é minha, você não vai tira-la de mim?

– Calma rapaz. – João disse enquanto se levantava lentamente e pegava a bolsa que Doca carregava. Atirou para ele que pegou e abriu ligeiro, derrubando a bolsa enquanto pegava a pedra com a mão boa. – O que você diria – continuou, enquanto pegava o seu próprio casaco e colocava a mão no bolso – se eu te dissesse que tenho outra parecida? – completou enquanto mostrava a pedra triangular em sua mão.

domingo, 3 de outubro de 2010

Capítulo Nove

Porto Alegre, Centro

Caminhado lentamente, devido ao grande peso de suas malas, Lúcia chegou até o ônibus com destino a Curitiba. Suas colegas haviam viajado uma semana antes, para arrumar um apartamento e conhecer a cidade. Lúcia ficou cuidando da burocracia legal que envolvia a sua partida. Fez a doação da sua parte do apartamento para a mãe e para o irmão. E agora estava lá, sozinha, como sempre foi a sua vida inteira.

Entrou no ônibus e se dirigiu a poltrona vinte e sete. Pela janela, viu famílias se despedirem. Por um momento, quase chorou, mas a sensação de alívio era mais forte. Estava livre, finalmente, e a estranha certeza de que nunca mais veria seus parentes a deixou feliz.

Sua lembrança mais remota era o seu avô Sílvio a ignorando, sua mãe se queixando por ela ser uma menina e o pai desligado, lendo jornal. Cresceu sentindo inveja de suas colegas, que tinham pais amorosos e dedicados. Elas ocupavam o primeiro lugar, Lúcia, mesmo sendo filha única, o último. Quando o seu avô morreu, não derramou nenhuma lágrima. Nunca o conhecera de verdade. Sabia apenas que era um homem amargo, que às vezes lamentava a morte da esposa, outras vezes a amaldiçoava.

Quando completou doze anos, descobriu que seus pais podiam ser diferentes. Ricardo nasceu e foi tratado como um príncipe. Se para Lúcia não havia dinheiro para comprar um bom tênis, Ricardo podia ir nas lojas e escolher o que quisesse.

Ricardo levou seu pai as dívidas e, conseqüentemente, a procurar mais trabalho. Foi depois de trabalhar o dia inteiro em uma obra sentando tijolo, que Pedro foi trabalhar como auxiliar de padeiro. Com muito sono, ligou o forno sem tomar os devidos cuidados, e morreu na explosão que provocou. Não receberam um centavo pelo seu falecimento e a seguradora quase os cobrou pela destruição.

Tempos difíceis para uma moça de quinze anos. Arrumou o seu primeiro emprego, como vendedora de uma loja de bijuteria perto de casa. Pela primeira vez, desejou fugir de tudo. Mas seu senso de responsabilidade sempre foi mais forte.

E agora, olhando a estrada, sentia pela segunda vez a velha revolta. Mesmo ajudando em casa, sua mãe nunca lhe respeitou. Sempre lhe impôs as suas vontades, mesmo que isso desagradasse ou magoasse Lúcia. Aos poucos, foram parando de se falar, e apenas o necessário era pronunciado.

Por mais que doesse, sabia que Joana só não havia lhe corrido de casa porque era ela quem pagava a maioria das contas. Lembrou do rosto da mãe ao dar a notícia. Um misto de alívio e desespero. Ao saber que Lúcia continuaria a mandar dinheiro, só o alívio permaneceu.

Seu irmão Ricardo recebeu a novidade de forma indiferente. Sabia que, por ele, a mãe até trabalharia. Ele era o mundo dela, Lúcia, uma fonte de renda.

A lua refletiu no mar e Lúcia deu um sorriso triste. Nunca mais os veria. Mas não era isso que fazia as lágrimas escorrer em seu rosto, era a certeza de que sempre seria sozinha.

Quando o ônibus passava pela entrada de Torres, Lúcia dormiu.


– Você pensou que a vida era fácil? – perguntou a mulher sentada ao seu lado, com longos cabelos ruivos e olhos verdes.

– Hein?! Assustou-se Lúcia. Franzindo as finas sobrancelhas, olhou para aquela que parecia ser uma versão bonita de sua mãe. Reparou no vestido azul e na manga que não escondia no braço esquerdo um sinal igual ao seu.

– Eu sei o que você está sentindo – disse a mulher ignorando a sua surpresa – mas eu aprendi a conviver com a solidão. Somos pessoas destinadas a nunca seremos amadas.

– Você fala como se me conhecesse muito bem.

– E eu conheço, Lúcia. Você é como eu. Mas em breve irá descobrir que ninguém vale as suas lágrimas, porque ninguém vai orar por sua alma.

A estranha lhe tocou, e sua mão era extremamente gelada.


Lúcia acordou num pulo. O céu estava clareando e era possível ver que estavam em uma área urbana. Ao colocar as mãos no rosto, percebeu que havia chorado durante o sono. Lembrou da mulher e sua pele ficou arrepiada.

“É apenas o seu inconsciente dizendo para você parar de chorar por quem não te dá valor” pensou. E ao observar as ruas limpas, se deu conta que havia chegado ao seu destino. “De agora em diante, surge uma nova Lúcia. O passado ficou para trás, assim como os laços de sangue, os amores que não deram certos e todas as minhas causas perdidas.


Eram seis da manhã de sábado. Ao entrar na rodoviária viu as duas amigas sentadas. Agora tinha quem a esperasse. A nova Lúcia pegou um espelho na bolsa, ajeitou os cabelos castanhos, passou um lenço umedecido pela pele branca e passou um batom rosa nos lábios finos. Antes de fechar a bolsa, viu a pedra em formato de triângulo, passou os dedos de leve e sorriu. “Meu amuleto. As coisas já estão começando a melhorar. Só falta você me arrumar um homem bem gostoso”.

O ônibus parou e ela levantou, ajeitou os ombros e desceu os degraus cheia de classe. As amigas se olharam surpresas e logo em seguida correram para abraça-la.

– Estamos morando aqui perto. – disse Clarissa – que pegava a mala menor.

– Nossa... você não tinha tão pouca coisa como dizia – brincou Soraya, que puxava a mala maior.
– Gurias, larguem isso. Eu levo.

– De jeito nenhum. Você viajou a noite inteira. Eu e Clarissa sabemos como é cansativo.

– E vamos pegar um táxi. A saída é bem perto.


Soraya e Clarissa colocaram Lúcia a par de todos os eventos. O motorista do táxi, um senhor simpático, as ajudou com as malas e sugeriu alguns lugares. Mas não conversaram muito, em cinco minutos estavam na frente de um condomínio com três edifícios.

– Ilhas Gregas? – observou Lúcia.

– Agora somos deusas – respondeu Clarissa.

– Bom dia seu Maciel – Soraya se dirigiu ao porteiro – essa é Lúcia, a amiga que comentamos.

– Bem-vinda Dona Lúcia.

– Obrigada. Mas dispenso o dona.

– É nesse primeiro aqui, o Santorini. O nosso apartamento é no décimo andar e temos uma vista maravilhosa para o Jardim Botânico.

Ao entrar no apartamento, Lúcia achou que estava sonhando ainda. O sofá verde, a mesa de madeira escura com tampão de vidro, a cozinha branca.

– Vocês já mobiliaram?

– Somos muito eficientes. – comentou Soraya.

– Realmente somos – concordou Clarissa – mas o alugamos mobiliado. O preço estava ótimo e ele tem três quartos. Estava destinado a nós.

– Com certeza. – Lúcia concordou encantada.

– Venha. O seu quarto é o azul.

O azul era do mesmo tom do vestido da mulher que havia aparecido em seu sonho. Lúcia sacudiu a cabeça, não entendia a razão de não esquece-lo.
– Você não gostou? – perguntou Clarissa.

– Não gostei? Eu amei.

– Seja sincera. Vimos você sacudir a cabeça, não é Clarissa?
Clarissa concordou com um gesto de cabeça, olhando preocupada para Lúcia.
– Não gurias. Apenas me lembrei de um sonho que tive no ônibus. O quarto é maravilhoso. Nunca imaginei ter um assim.

Dormiram o resto da manhã e aproveitando que à tarde daquele sábado estava ensolarada, foram ao jardim botânico. Lúcia se impressionou com a grande estufa de vidro, Clarissa tirava foto delas junto a todas as flores e Soraya as fez caminhar por todas as trilhas. Retornaram exaustas. Clarissa foi direto para a cozinha.

– Gurias. Não temos pão.

– Hora do sorteio. – comentou Soraya que escrevia em três papéis. – Quem pegar o que tiver a palavra “Padaria” é a encarregada de buscar os pães.

Cada uma pegou um, Lúcia abriu o seu e se descobriu ganhadora da missão.

- Ok, onde fica a padaria?

– Aqui na frente. É só atravessar a rua. – Clarissa indicou.

Lúcia chamou o elevador, quando chegou, tinha uma simpática senhora com cabelos que pareciam algodão doce. Seu vestido lilás era um tanto chamativo, mas o sorriso que ela lhe deu, a tornava irresistível.

– Boa noite. – disse Lúcia.

– Boa noite, Lúcia. Finalmente veio de encontro ao seu destino?

domingo, 26 de setembro de 2010

Capítulo 8

Belo Horizonte, Cidade Jardim

A rua continuava a mesma da sua infância, as ruas arborizadas, os casarões e seus jardins, o tradicional colégio Loyola e seus irrequietos alunos, o museu Abílio Barreto. O engraçado é que nada disso a atraia.

Era apenas uma criança e percorria, junto com a mãe, as padarias, os pequenos mercados e as lojinhas procurando comprar tudo que estava na lista de madame Elvira, e depois, de madame Cristina.

Isso havia ficado em sua memória, o cheiro dos pães quentinhos, as velas coloridas, o perfume de madame Elvira, a dor de madame Cristina.

O carro parou na frente da mansão branca, que hoje era azul. Mas Vivian nunca iria conseguir se referir a ela de outra forma. Relutou muito em retornar ali, só que não podia negar o último pedido de sua mãe. O de terminar com tudo aquilo.

A corretora da imobiliária abriu os portões rapidamente, estava em pé, ereta, vestida com um comportado terninho marrom, com sapatos igualmente marrons. Um sorriso profissional nos lábios, preparada para convencer.

“Guarde sua lábia” pensou Vivian quando o motorista abriu a porta. Madame Elvira ficaria surpresa em saber que a negrinha que corria pelo jardim agora era uma importante empresária. Sorriu com essa idéia de que agora, ela estaria se revirando no tumulo, tão preconceituosa, jamais iria admitir que alguém de classe inferior fosse dona de sua casa.

– Boa tarde Senhora Mendes. Sou Mariana, a corretora.

– Muito prazer, Mariana.

– O seu marido não veio junto?

– Ele e as crianças estão em Londres – sorriu e explicou – eles já estão com mais de vinte anos, mas ainda acho que eles são crianças. As minhas crianças.

– Claro. Creio que toda mãe é assim. Ainda não sou mãe, mas a minha está sempre na volta.

– Isso significa que você é uma boa filha, Mariana. – Olhou em sua volta – Mas o que você tem a me dizer sobre a casa?

– É uma casa excelente. Como a senhora pode ver, o jardim está muito bem cuidado. Seguindo esse caminho – indicou com a mão o caminho em mármore carrara – e dobrando a esquerda, é possível chegar aos fundos onde estão à piscina, o jardim de inverno e um salão de festa...

– Piscina? – interrompeu Vivian – A casa passou por reformas? – Vivian se lembrava que o doutor Adriano tinha medo de água, por essa razão, nunca construiu uma piscina.

– Só na parte de fora. O último dono, apesar de não morar nela, achou que algumas melhorias no fundo da casa, que não tinha nada, iriam valoriza-la.

– Hum... alguém morou aqui, depois da família Ribeiro Melo.

– Sabe que não. Isso é uma curiosidade sobre a casa. Todos os que compram, a reformam, mas nunca chegam a morar.

– Realmente curioso.

– À direita temos a garagem, cabem até sete carros cobertos e mais uns cinco descobertos. A senhora prefere começar pela parte externa ou quer olhar a parte interna?

– Quero olhar a parte interna.

A corretora abriu a porta principal, ainda era original, Vivian pode observar que a moça teve que colocar um pouco mais de força para empurra-la.

– Como à senhora sabe, ela já vem mobiliada. Quase todos os móveis são originais. Posso tirar os lençóis se a senhora desejar. A casa foi toda limpa, então não tem o risco de levantar poeira.
– Não é necessário. – Vivian negou enquanto balançava a mão. Podia ver, mesmo com os lençóis que o grande sofá branco continuava lá. Assim como a cristaleira. Sabia que não guardava mais nada ali, madame Cristina levou todos os cristais que ali se encontravam. A fina televisão na parede dava um toque moderno em uma parede pertencente ao século passado. Vivian riu. Ela também era do século passado.

– Nas proximidades, a senhora irá encontrar salão de beleza, padarias, restaurantes, antiquários, supermercados, agências bancárias... e mesmo com tudo isso, é um bairro extremamente tranqüilo. Ter uma casa aqui é um sonho de consumo para qualquer morador de Belo Horizonte.

“E apesar disso, ninguém habita essa mansão” pensou Vivian.

Caminharam por toda a casa, até chegarem ao quarto principal. Com cuidado Vivian se aproximou da parede no qual a cama ficava encostada. Era o mesmo papel de parede. Ninguém o tocara.

“Só você pode acabar com isso Vivian” as palavras de sua mãe vieram em sua cabeça.

– Vou ficar com ela. – disse se virando para a corretora.

– Que ótimo. A senhora fez um excelente negócio.

–Tenho certeza que sim. – puxou uma cadeira e abriu a bolsa – Conforme o Cândido, dando o sinal, eu já poderia ficar na casa. O acordo persiste?

– Claro. O Cândido, meu gerente, já havia me passado essa particularidade.

– Bom. – Vivian começou a preencher o cheque. – Não gostaria de ficar em um lugar impessoal, como um hotel, tendo comprado uma casa dessas.

– Claro – a jovem concordou rapidamente – vou providenciar os papéis o mais rápido possível.

Despediram-se. Vivian indicou a garagem para o seu primo Antônio, que estava fazendo o papel de motorista, mas na verdade iria ajuda-la em sua missão. Eles precisavam acha-las, todas elas.
Vivian ainda se lembrava da noite anterior a morte de madame Elvira. Todos tiveram que sair de dentro da casa. Inclusive doutor Adriano. Como não tinham para onde ir, ela e sua mãe ficaram escondidas em uma peça junto à garagem. A meia-noite, todas as luzes da casa foram acessas. Os gritos de madame Elvira eram ouvidos dali. Vivian não entendia o que ela falava, mas sabia que não era bom, pois sua mãe estava com os olhos arregalados.

No outro dia, doutor Adriano a encontrou morta na grande cama de casal que compartilhavam. Fazia apenas um mês que seu jovem filho Carlos havia morrido e o homem ficou numa tristeza profunda.

Doutor Adriano se recuperou apenas um ano depois, quando encontrou Cristina, uma jovem viúva que estava em Belo Horizonte a passeio. O inesperado aconteceu e eles se apaixonaram. E todos sabiam que esse amor era verdadeiro, pois ambos eram muito ricos. Viveram cinco anos na casa, mas o casamento de desgastava com os abortos anuais de madame Cristina.

Quando tinha dez anos, a mãe sentou Vivian em um dos bancos da cozinha e disse: “Querida, não se assuste com o meu cabelo quando eu voltar da conversa que terei com madame Cristina e doutor Adriano. E vá arrumando as nossas malas”.

Quando sua mãe voltou, seus cabelos estavam totalmente brancos. Uma semana depois, todos se mudaram para Recife. Lá, madame Cristina teve três filhos, mas doutor Adriano só viveu cinco anos, a cada filho que nascia, ele definhava mais. Nenhum médico detectou a doença que o afligia.
Mas madame Cristina recompensou sua mãe, que negou qualquer coisa pra ela e pediu estudo para a filha. Assim, Vivian foi para boas escolas e acabou administrando os negócios de madame Cristina junto com os filhos dela. Não era empregada, era sócia.

E essa era a razão de Catarina, sua mãe, achar que, depois de toda a sorte que tiveram, deviam isso. Acabar com toda a maldade de Elvira.

– Hora de verificar se mamãe estava certa. – disse para Antônio.

Vivian pegou uma maleta marrom. Com calma, entrou na casa e se dirigiu até as escadas. A cada degrau que subia, sentia o coração se apertar. Tomada de uma ansiedade súbita, acelerou seus passos e entrou novamente no quarto principal. Foi até uma pequena mesa de madeira e colocou a maleta sobre ela. Abriu-a e de lá tirou um livro com uma capa verde desbotada e dois vidros transparentes, um, com líquido amarelo, e outro, com um líquido vermelho. Antônio entrou no quarto, em suas mãos, uma vassoura e um balde com água. Vivian colocou parte do líquido amarelo no balde, e esse tornou a água amarelada. Arredaram a cama e retiraram o papel de parede ficando apenas uma tintura branca, onde o líquido vermelho foi atirado. Ao entrar em contado com a cor branca, ele se tornou rosado e a seguinte frase surgiu:

“Qwas l i sol u mwl ddu”

– Bingo. – Antônio exclamou.

– Me alcance a máquina fotográfica. – Vivian pediu sem tirar os olhos da parede. Sentiu Antônio colocar o equipamento em sua mão. Com cuidado, ajustou o zoom e pressionou o botão para capturar a frase. Depois, conferiu a nitidez dos símbolos.

– Pode fazer. – pediu.

Após ouvir suas palavras, Antônio molhou a vassoura no balde e começou a lavar a parede. Depois de seca, Vivian atirou novamente o líquido vermelho, e nada apareceu.

Desceram até o escritório, Viviam ligou o notebook e nele conectou a máquina fotográfica. Com a foto ampliada na tela, abriu o livro com cuidado. Folheou as páginas, procurando cada símbolo, e aos poucos, a frase começou a lhe fazer sentido. Quando terminou, sentiu o corpo gelado. Olhou para Antônio e pronunciou em voz alta:

“Mortos são os gerados em minha cama.”

domingo, 19 de setembro de 2010

Capítulo Sete

São Paulo

João colocou os diários de lado. Nunca lhe passara pela cabeça que não era o filho sonhado por sua mãe. Até ela o julgava um mimado. Seria ele realmente um nada? Um aproveitador barato de mulheres de quinta categoria? Estava sendo injusto. Nádia nunca havia sido uma mulher de quinta, e se fosse honesto, confessaria pra si mesmo que ela casou por amor, por acreditar nas palavras dele, o resto veio pela falta de respeito.

Levantou da poltrona e olhou para o envelope fechado. Ali estava a chave para encontrar o resto da sua família. Mas queria isso? E se eles quisessem parte do dinheiro da mansão?

“Não. Se eles soubessem já teriam vindo atrás há muito tempo.” Foi até o bar e se serviu de um copo de uísque. Resolveu não procurar ninguém. Ficaria com as pessoas de sua classe. Sairia. Iria ao teatro. Freqüentaria a academia e aceitaria todos os convites para as festas. Olhou-se no espelho, era um homem alto, quase um metro e noventa de altura. Seus cabelos negros contrastavam com a pele extremamente branca e com os olhos muito azuis. O rosto quadrado e aristocrático lhe dava uma certa beleza. Assim como o corpo, embora esse não estivesse tão atlético.

Colocou os diários de sua mãe em uma caixa e guardou em um armário próximo. Pegou o envelope ainda fechado, o último enviado pelo detetive quando sua mãe já estava morta, abriu a primeira gaveta da mesa de escritório e ali o deixou repousando.

João chegou bufando em casa. Havia levantado cedo e ido a academia. Sua inscrição havia sido cancelada: não era mais bem vindo. Acabou indo para uma de classe média, onde ninguém sabia quem ele era. Mas não era a mesma coisa. No seu restaurante preferido, apesar de haver mesas vazias, lhe informaram que não havia lugares disponíveis. Tentou vários outros e obteve a mesma resposta. Terminou sentado em uma calçada comendo um cachorro-quente.

Passou a tarde vagando, ao entardecer, voltou ao flat e se arrumou, foi ao teatro e as pessoas, antes amigas, o ignoraram. Estava sozinho. Por culpa de Nádia. Nem ele pensaria em uma vingança tão perfeita.

“Não nasci para ser sozinho” pensava enquanto abria a gaveta e tirava o envelope. Rasgando o papel pela lateral, tirou de lá duas folhas. Na primeira, referências a Silvio. Na segunda, ao filho ilegítimo.

O irmão falecido, Silvio Ribas, tinha deixado família em Porto Alegre. Já o filho ilegítimo se chamava Josias e não tinha sobrenome. Morava em um morro no Rio de Janeiro.

“Pobre” pensou João “não preciso de um pobre, mesmo sendo o meu tio”. Tio Sílvio estava morto, sua filha Joana, havia casado com um pedreiro e tinha uma filha pequena. “Outro pobre” pensou João.

Mas a sensação de solidão o invadia. Seus amigos o haviam abandonado. Os convites para festas sumiram. Seu sobrenome não significava mais nada. Não na pessoa dele. Nádia continuava saindo em todas as colunas sociais dos jornais paulistas, sendo consolada por toda a sociedade paulista “que deve chamá-la de cornuda pelas costas e na sua frente dizer que agora ela está melhor”.

Naquela noite, ao se aproximar de uma jovem senhora, uma antiga conhecida, essa se afastou dizendo não precisar de parasitas. Com isso, suas esperanças de dar um novo golpe do baú se esvaíram.

Foi até o computador e conectou-se a internet. Acessou um site de mapas e informou o endereço mais próximo, o endereço do morro. Não era tão distante. Imprimiu as informações, tomou mais um copo de uísque e decidiu pensar sobre o assunto no outro dia. Desligou tudo e foi pra cama.

Havia esquecido de fechar as janelas e assim, as sete da manhã, o sol invadia o quarto. João abriu os olhos com a claridade. Olhou para a mesa onde estava o relógio e encontrou a estranha pedra em forma de triângulo. Não se lembrava de tê-la colocado lá. Aliás, havia esquecido dela.

Levantou, colocou um abrigo e foi para a academia. Na esteira ficou pensando na pedra, então lembrou que havia aberto a caixa com os diários na cama. Como ela estava junto, ele mesmo deveria ter colocado na mesinha, separando-a dos diários. Pois acabou levando a caixa para a sala, para ler de forma mais confortável na poltrona.

Perto da academia havia um restaurante a kilo, entrou lá e se serviu. Uma das meninas, que havia se exercitado no mesmo período que ele, lhe sorriu. Pensou em convida-la para sentar em sua mesa, mas não estava com cabeça para uma transa. E pela qualidade das roupas que ela vestia, era a única coisa para que servia. Terminou de comer e voltou para o flat.

Sentou na cadeira em frente à mesa do computador e olhou os papéis impressos. “Por que não?” se interrogou. Foi ao quarto e arrumou algumas roupas em uma pequena mochila, pretendia voltar em dois dias, encontrando ou não o tal Josias. Por impulso, pegou a pedra e a guardou também.

Desceu até o subsolo e colocou tudo no banco traseiro do carro esporte preto. Com prazer, sentou-se ao volante do carro e girou a chave, ouviu o barulho do motor, ligou o som e o jazz tomou conta do pequeno ambiente. Ao sair da garagem teve que frear bruscamente para não atropelar um gato avermelhado, que ainda o encarou com seus enormes olhos verdes. As pessoas o olharam de forma esquisita.

“A humanidade está realmente cruel” pensou João “estranham um motorista parar para não atropelar um gato”. Seguiu em frente e deparou-se com o grande tráfego de São Paulo e logo ficou parado.

Já era noite quando conseguiu andar com desenvoltura na Via Dutra. Estava em um ponto em que podia enxergar o Aeroporto Internacional de São Paulo, o Cumbica. Em nenhum momento lhe passou pela cabeça: ir de avião. Sentia prazer em dirigir e achava que essa viagem serviria para colocar suas idéias no lugar. Como o que iria fazer de sua vida dali por diante. E principalmente, algo em que nunca havia pensado: no que poderia trabalhar.

A viagem estava iniciando realmente agora, e João podia prever um trajeto tranqüilo, não havia movimento do lado contrário e o caminhão que o seguia não estava tão próximo. Foi quando olhou para frente e viu o menino no meio da pista que estava.

domingo, 5 de setembro de 2010

Capítulo Seis

Duque de Caxias, Rio de Janeiro

Doca sentou em uma calçada e ficou pensando no que iria fazer. Não podia ficar muito tempo em Duque de Caixas, Bagão tinha conhecidos ali. Na sua imaginação, já circulavam cartazes dizendo:
“Procura-se Eduardo Oliveira, 10 anos, pele morena, cabelos e olhos castanhos, magro, 1,45 de altura. Paga-se recompensa. Trazer vivo ou morto”.

“Preciso sair daqui e ir para um lugar sem sol. A mãe sempre dizia que eu era bem branquinho, como ela e meu pai, mas a nossa pele havia ficado morena de tanto sol. Se eu ficar branco, ninguém mais me reconhece.”

Foi nesse momento que Doca viu um pequeno caminhão azul, muito velho, carregando vários móveis. Um homem se despedia e entrava em um opala. Dentro do carro, uma mulher e duas crianças. Estavam se mudando.

Doca se aproximou com cuidado do motorista, um homem de cabelos e bigodes brancos, que colocava uma camiseta.

– Tio, pra onde o senhor está indo?– perguntou Doca

O homem virou assustado, procurando a voz. Era um homem alto e olhando para baixo, encontrou Doca, fazendo a cara mais inocente do mundo.

– Estou indo pra Resende, menino. – respondeu – Por que quer saber?

Rezende era quase fora do Rio de Janeiro, pelo que Doca lembrava das aulas de geografia, e subitamente decidiu: ia para São Paulo.

– O senhor me dá uma carona? – pediu.

– Mas a tua mãe vai ficar preocupada contigo.

– Não, foi ela quem pediu. – mentiu Doca – Ela está muito doente e meu pai foi trabalhar em uma construção em São Paulo. Não conseguimos falar com ele, tenho apenas o endereço e não tenho dinheiro para pagar um ônibus até lá. Por favor, nos ajude.

O homem ficou pensativo, como se através dos olhos de Doca, pudesse identificar se o menino estava mentindo ou não. Mas as lágrimas que ameaçavam desabar o convenceram.

– Está bem. Entre pelo lado do carona, moleque.

Doca sorriu e correu para o outro lado, com medo do motorista mudar de idéia. Sentou, colocou a pequena sacola e a bolsa da sua mãe no chão, antes de ajustar o cinto de segurança.

No rádio, tocava uma música sertaneja. No painel, várias fotos e adesivos.

– Meu nome é Antônio, e o seu?

– Eduardo.

– Meu neto mais novo se chama Eduardo. O que a sua mãe tem?

– Ela sofreu um acidente. Está com o corpo todo queimado.

– Que horror. Ela estava no ônibus que o caminhão bateu?

– Sim.

– Nossa. Desejo boa sorte pra vocês. A maioria morreu naquele acidente, não?

– Sim.

Antônio acabou mudando de assunto, viu que o menino se encolhia cada vez mais e sua voz se tornava chorosa. Coitado, não deveria ter ninguém mais no mundo. Então começou a contar as travessuras dos seus netos. Três horas depois, chegavam a Rezende.

– Pode me largar aqui na Via Dutra mesmo. – falou Doca.

– Você tem certeza?

– Claro – sorriu Doca – Vou até um posto ver se consigo carona com um caminhoneiro.

Antônio parou o caminhão e mexeu na carteira.

– Não é muito – disse dando quinze reais a Doca – Mas pelo menos você pode comer alguma coisa.

Doca desceu do caminhão, e o viu andar mais um pouco, dobrar em uma rua e sumir. Com cuidado, caminhou meia-hora pelo acostamento da rodovia, até achar um posto. Já era quase noite e logo os caminhoneiros iriam parar para jantar e dormir. Avistou na lateral um banheiro, lá dentro havia além de pia e vaso, chuveiros. Ajeitou suas coisas e tomou um banho rápido. Quando desligou os chuveiro, notou que os seus pés estavam mais claros. Observando as pias, pegou uma pasta de dente esquecida. Usando os próprios dedos, fez uma limpeza rápida.

Saiu do banheiro olhando para os lados, caminhou lentamente até avistar uma grande árvore. Subiu e se ajeitou em um dos galhos mais próximos. Mexeu na bolsa da mãe, encontrou uma maça e um pequeno pacote de biscoitos. Comeu a maça e guardou o pacote para mais tarde. Cansado. Dormiu sentado no galho com as costas grudadas ao tronco.

Eram cinco da manhã quando acordou com o ronco do motor de um grande caminhão. Saiu rapidamente da árvore e foi até o estacionamento, onde umas dez carretas estavam paradas. Os quatro primeiros motoristas que abordou lhe negaram carona. O último, um homem na casa dos quarenta, com uma barriga imensa, chinelo de dedo e uma aparência de sujo o analisou de cima a baixo.

– Pra onde você vai?

– São Paulo. – Respondeu Doca

– Então entra. Vou até Pindamonhangaba.

Doca entrou, mas sentiu uma estranha aflição. Desejou pegar a pedra, mas isso ia chamar a atenção. Buscou os biscoitos no fundo da bolsa da mãe.

– Bolsa de mulher, hein?! – ao olhar os biscoitos – Isso não é café. Cê ta muito magro moleque. Espera um pouco. – o homem desceu e abriu uma pequena caixa que ficava acoplada ao caminhão. – Tome – disse ao retornar, oferecendo um pão com margarina.

Doca comeu com gosto e descobriu no caminho que Zé, como era conhecido, não era uma má pessoa. Sua aparência se devia ao cansaço, pois fazia três dias que viajava direto e só conseguira dormir algumas horas na noite anterior.

– Mas... como você agüenta? – perguntou Doca, curioso.

– Tomo umas coisas.

– Não é perigoso?

– Perigoso é... mas tenho quatro filhos pra sustentar. Preciso de dinheiro e quanto mais tempo dirigir, mais dinheiro eu ganho.

– E é muito dinheiro?

– Pior que não. Quem ganha dinheiro é o patrão que nos paga. O bom é carregar carro. Mas é um mercado mais concorrido.

Doca ficou sabendo os tipos de carga e o tempo de cada uma. Achou a vida de caminhoneiro interessante, embora fosse muito corrida. Tão corrida quanto a estrada, e quando se deu conta, Zé já estava parando na beira da estrada para Doca descer.

– Menino, dificilmente você vai conseguir carona agora. Vai caminhando até o segundo posto que encontrar nas proximidades de Taubaté, lá, sempre tem uns camaradas legais que param para almoçar.

Doca ganhou mais dez reais e agradeceu. Ajeitou a sacola nas costas, atravessou a bolsa da sua mãe no corpo e iniciou a caminhada pelo acostamento. Percebeu que não era o único que fazia aquele caminho. Outras pessoas o acompanhavam, alguns a pé, outros de bicicleta. Carros e caminhões passavam levantando poeira, alguns soltando fumaça. Nesse momento, idosos e crianças tossiam.

Doca caminhou os dezesseis quilômetros que separavam Pindamonhangaba de Taubaté. Era quase hora do almoço quando viu um carro destruído. Estavam retirando-o debaixo de um ônibus.

– Foi culpa do carro, seu guarda – dizia uma senhora baixinha – eu vi quando ele tentou ultrapassar um outro carro e entrou embaixo desse ônibus.

– Aonde a senhora mora? – perguntou o policial rodoviário anotando tudo em um papel.

– Ali – disse à senhora apontado para uma rua – na Vila Nossa Senhora das Graças.

Doca foi passando pelas pessoas até ver um menino que deveria ter a sua idade.

– Oi, aqui é Taubaté?

– É sim. Você estava no ônibus? – perguntou o menino.

– Não – foi à resposta de Doca que seguiu em frente, desviando dos curiosos. Passou por um posto parecido com o que havia parado no dia anterior, caminhou mais um pouco e encontrou o segundo.

Doca entrou na lanchonete e constatou que um prato de comida era barato. “Cinco conto uma la-minuta” pensou “não como a dois dias, posso comer um prato assim.”

Pediu seu almoço e comeu com vontade. A atendente, com pena, pegou um copo da água e colocou ao lado do prato. Doca sorriu para a bonita moça e pensou o que ela fazia ali? Mas se corrigiu, agora sabia que ninguém escolhia os seus caminhos. Terminou o almoço e pediu carona aos poucos caminhoneiros que ali se encontravam. Mas todos lhe negaram. E Doca voltou a caminhar pela Via Dutra.

“Dizia aquela revista no colégio que a Via Dutra recebeu esse nome por causa do presidente Dutra” se distraia Doca enquanto colocava uma camisa na cabeça para proteger do sol forte “que foi inaugurada em janeiro de 1951, começa no trevo das margaridas no Rio e termina no Tietê em São Paulo, e tem quatrocentos e dois quilômetros. Quantos quilômetros será que eu já percorri? E quantos faltam para eu chegar a São Paulo se tiver que ir caminhando?”, Doca se questionava enquanto observava o mato que o acompanhava pela rodovia.

“Será que Bagão morreu? Se ele morreu, ninguém vai querer me matar. Não...”Doca sacudiu a cabeça “Rico viria atrás de mim. Ele nunca ia me perdoar por ter matado o namorado dele. E caminhando nesse sol eu nunca vou ficar branco.” Observou os braços cada vez mais escuros. “Falando em branco, o que a professora havia falado sobre os bandeirantes?”

Doca caminhou quase quatro horas, misturando pensamentos de sua vida pessoal, com leituras de revista e assuntos aprendidos na escola. No final da tarde, chegou a Caçapava. Parou em uma lanchonete e pediu para usar o banheiro. Abriu a torneira, lavou o rosto e tomou água. Não sentia mais os seus pés. Ao mesmo tempo, lhe parecia que poderia andar pelo resto da vida.

Ao chegar na rua observou uma Kombi que dizia “Faço Frete”. O homem se preparava para sair quando Doca se aproximou.

– Oi. Aonde você vai? – o homem deu um pulo ao ouvir a voz de Doca.

– Que susto. Vou fazer uma entrega perto do de São Paulo. Por que?

– São Paulo capital?

– Claro.

– Você pode me dar uma carona?

O homem olhou na volta, como se procurasse alguém.

– Não tem nenhum adulto com você?

– Não.

Ele coçou a cabeça, como se pensasse por um momento.

– Está bem. Vamos. – Disse num tom, como se concluísse que um menino daquele tamanho não faria nenhum estrago.
Era noite quando Doca desceu da Kombi. Ao longe. Observava as luzes no aeroporto de São Paulo e por cima de sua cabeça os aviões passavam. Sempre tivera curiosidade de andar num. Distraído, tirou a camisa que ainda estava amarrada sua cabeça, e essa escapou de sua mão, sendo levado pelo vento para a pista contrária. Sem pensar, atravessou a pista correndo para busca-la. Abaixou-se para pegá-la no chão. Quando se levantou e olhou para frente, viu dois faróis muito perto e gritou.

domingo, 29 de agosto de 2010

Capítulo Cinco

Porto Alegre

– Lúcia, estive pensando... – começou Clarissa.

– Senti. – respondeu a outra.

– Ah... como assim, sentiu? – Clarissa arregalou os olhos.

– Senti o cheiro de queimado.

– É sério, Lúcia. – Esbravejou Clarissa. – Você leu os classificados no último domingo?

– Não. – Lúcia desviou os olhos, evitando admitir para colega que não possuía três reais para comprar o jornal dominical.

– Pois devia, se quer sair dessa vida. – Suspirou enquanto mexia na bolsa. – O que seria de você sem mim. Encontrei isso pra gente.

– “Vaga para formandos em Psicologia em uma grande empresa” – Lúcia leu em voz alta.

– Fala baixo, toupeira – disse Renata que entrava na sala – A megera e o Júnior já estão chegando e eu escutei a tua voz dizendo vaga lá da rua.

– Mas é em Curitiba! – exclamou Lúcia ignorando Renata – Não tenho como ir pra lá, Clarissa.

– Claro que tem. Até porque vamos juntas. Eu também vou me escrever.

– No que vocês vão escrever? – perguntou Renata

– Em uma vaga para formandos em psicologia – respondeu Clarissa – eles não exigem experiência, apenas que seja formando.

– Mas isso é ótimo pra vocês. Qual é a tua dúvida, Lúcia? – disse Renata encarando a colega – Vocês quase se matam estudando e não trabalham na área, tu achas que vai conseguir alguma coisa aqui? Trabalhando em uma consultoria? É uma chance de ouro.

– Para agarrar com as duas mãos. – completou Clarissa.

– Eu concordo com vocês. Muitas vezes penso que diabos faço indo todo dia para aquela faculdade trabalhando em uma área completamente diferente. – Olhou para as unhas antes de voltar a encarar as colegas. – Mas eu preciso ajudar no sustento da casa. E por pior que seja o trabalho, o salário é razoável e eu preciso desse dinheiro.

– Mas vamos ganhar o dobro lá. – disse Clarissa – Você abre uma conta pra tua mãe e transfere metade do dinheiro pra ela. E nós dividimos um apartamento. Aposto que ela vai ser a primeira a te incentivar.

– Ter o meu dinheiro sem ver a minha cara? Acho que ela vai amar. – Lúcia sorriu tristemente.


Joana passava a mãos pelos cabeços ruivos. Os olhos verdes já não possuíam o brilho da juventude, mas eram muito mais espertos. Só que, naquele dia, não sabia o que lhe atormentava. Torceu as mãos e lembrou do pai. Tinha aquela mania desde pequena e o pai dizia que ela era igual à avó: na aparência e nos gestos. Não se lembrava dessa avó, uma vez, virá a foto dela no jornal, no momento do seu falecimento. Seu pai ficou muito triste e se trancou no quarto por dias. Quando indagado do porque de não ir no enterro, respondeu que não podia, não havia dado o neto homem que Dona Irina desejava.

Por essa razão, ele não olhou para Lúcia quando soube que era uma menina. Já havia desaprovado o seu casamento com Pedro, um auxiliar de padeiro que trabalhava próximo a sua casa. Só que ninguém manda no coração, Joana se casou cedo para desgosto do pai. Silvio morreu de câncer quando Lúcia tinha dez anos, e não conheceu Ricardo, o neto homem que tanto havia desejado. Culpa do cigarro.

Depois, foi a vez de Pedro morrer em um incêndio. “Quanta tragédia.” Pensou Joana. “E qual a razão de começar a pensar em tudo isso?”. Quando terminou a frase, estava na frente do quarto de Lúcia. Entrou e foi até a cômoda, onde estava a pedra triangular. Segurou-a com a mão direita. Ela não lhe era estranha. Parecia que já a tinha visto uma vez, numa imagem que não sabia se era real ou imaginação sua.

Era muito pequena e lembrava de sua mãe sentada em uma cadeira, se balançando e grudada na sua barriga, havia uma pedra com reflexos amarelos e rosas. Como aquela que segurava agora. “Não! Minha mente já está criando coisas. Seria muita coincidência.” Balançado a cabeça, Joana largou a pedra de volta no seu lugar e foi arrumar a casa.


Lúcia olhava para o site. “Mal não há em me inscrever. Isso não é garantia de que vão me chamar”.

– E se nos chamarem, Clarissa? Ainda temos um semestre e meio?

– Falei com a coordenadora. Vamos para a Puc de lá e problema resolvido. Inclusive a questão do estágio. O curso é o mesmo, e as disciplinas também. Não teremos nenhum problema com a transferência e eles ainda nos darão uma carta de recomendação.

Sem mais pensar, Lúcia informou todos os dados. A sorte estava lançada. Voltando a realidade, pegou algumas fichas e começou a digitar, tinha uma hora para fazer o serviço de duas, mas a culpa era sua, por ser tão indecisa.

– Lúcia. Já terminou de digitar os cadastros dos funcionários do novo cliente?

– Ainda não, Júnior.

– Assim não dá. Por acaso estava fazendo trabalho para aquela porcaria de curso?

– Não, não estava. – suspirou – Não estou bem hoje, ta legal?! - mentiu

– E eu com isso – gritou Júnior – Você está me atrasando!

– O que está acontecendo aqui? – perguntou a gerente

Imediatamente todas ficaram eretas em suas cadeiras. As outras quatro moças mal respiravam para não serem notadas.

– O problema é que Lúcia está atrasada com a digitação dos cadastros e eu preciso desses dados para amanhã de manhã.

– E porque a Lúcia está atrasada? – A gerente questionou Júnior, ignorando a presença de Lúcia.

– Conforme ela, não está se sentindo bem.

– Aqui não é lugar para não se sentir bem. Senhorita Lúcia – pela primeira vez a mulher a olhou – trate de se sentir bem e só sair daqui quando terminar o cadastro. Sem horas extras é claro, já que o atraso é culpa sua – a mulher já ia saindo quando disse uma última frase – E sem erros.

– Cretino – Renata murmurou quando a gerente já tinha voltado para a sua sala.

– Eu? – Reclamou Júnior. – Vocês ficam fofocando besteiras e atrasando o meu trabalho e eu sou o cretino.

– Cretino e desleal. Tu sabes que a gente sempre se ajuda. Inclusive já te ajudamos. Mas lembre-se: pra ti, nunca mais. Lúcia, me passe alguns cadastros, já terminei a minha parte por hoje e estava adiantando coisas da próxima semana – e com o dedo em riste sentenciou – e se você abrir a boca, a gerente Marlene vai saber quem fez a análise do posto de combustível semana passada, enquanto você estudava para a sua prova de estatística.

Júnior sentou calado. Olhando com ódio para Lúcia. As seis horas todos os formulários estavam sobre a mesa do rapaz, que não encarava nenhuma das moças. Desde aquela noite, Lúcia passou a rezar, com a pedra embaixo do seu travesseiro, para que lhe chamassem na vaga de Curitiba.


– Me ligaram – sussurrou Clarissa em seu ouvido – e pra Soraya também. Fique atenda ao teu celular.

– A Soraya também se inscreveu?

– Eles abriram vaga para estudantes de direito também. Tentamos convencer a Ane e a Renata. Mas sabe com é, a Renata está noiva e a Ane é uma eterna apaixonada pelo Júnior. Só vai sair daqui, quando ele também for.

Lúcia suspirou, até o incidente dos cadastros, ela também era assim, mas ele havia sido tão sujo. E se antes ele não reparava nela, agora a ignorava por completo. Nunca mais atrasou nada que fosse pra ele, mas Júnior a culpou pela reprimenda de Ane, embora essa não tenha cumprido o prometido e, uma semana depois, já o estava ajudando.

No final da tarde, o telefone de Lúcia tocou. Aproveitando que a gerente estava em reunião, saiu do escritório e agendou a entrevista. Como o local era perto, marcou no horário de almoço. Foi uma conversa de aproximadamente meia-hora, com uma psicóloga e uma representante da área de recursos humanos. Lúcia não tinha experiência, mas apresentou sua idéia para o trabalho de conclusão, o que entusiasmou as entrevistadoras, que afirmaram estarem procurando um projeto como aquele.

Foi com alegria que voltou ao escritório e recebeu um sanduíche com suco de Ane.

– Como foi? – perguntou a colega
– Acho que bem.

– Quando sai o resultado?

– Na sexta.

Quando sexta chegou, nenhuma das três paravam quietas e as outras duas começaram a sentir a mesma ansiedade.

– O que está acontecendo aqui? - perguntou Júnior – O Brad Pitt virá nos visitar e ninguém me disse nada?

Nesse momento, o celular de Soraya tocou, e ela foi para o banheiro. Quinze minutos depois, ela se dirigia para a sala da gerente. Clarissa e Lúcia trocaram um olhar.

– Ei, eu estou falando com vocês. Lúcia, você pode me responder?

– Há, vejo que depois de várias semanas, tu lembrastes do meu nome?

– Para de bobagem. Me diz o que aconteceu com a Soraya?

– O que aconteceu – disse a própria Soraya saindo da sala da gerente – é que estou indo embora. Acabei de dar o meu aviso prévio.

– Sério? – exclamou Júnior – Para onde você vai?

– Para Curitiba.

– Precisamos brindar. – disse Renata indo buscar os copos.

No final da manhã, o celular de Clarissa tocou. E Júnior acompanhou abobado Clarissa fazer o mesmo caminho de Soraya. Banheiro, sala da gerência e comunicado. Seguiu os brindes e a comemoração.

Lúcia se revezava entre torcer as mãos e roer as unhas. Será que seria chamada? Será que teria coragem? E se não a chamassem? Ia ficar enterrada a vida inteira ali. Passou o almoço, a tarde chegava ao fim e nada. Com lágrimas nos olhos, Lúcia pegou sua bolsa e fugiu do serviço. Não podia comemorar a felicidade das colegas quando a sua inveja a entristecia.

Na segunda, todas as olhavam com cuidado. Lúcia se sentou quieta, tentando se conformar com a sua vida. O celular tocou e ela atendeu, esperando ouvir a voz da mãe pedindo alguma coisa.

– Bom dia. É Lúcia Cardoso?
– Sim. É ela.

– Aqui é Adriana, da indústria Ambiental. Eu fiz uma entrevista contigo quarta-feira passada lembra-se?

– Sim, claro – respondeu Lúcia.

– Como eu te disse, o teu projeto de conclusão é muito interessante. Levei a idéia para o diretor da empresa e ele adorou. Como sei que você nunca trabalhou na área, quero propor um desafio: você está disposta a assumir a coordenação do teu projeto dentro da nossa empresa? É claro que nos primeiros seis meses você vai passar pelo mesmo programa dos demais formandos, até para conhecer a empresa. Mas a sua cobrança será maior, pois depois desse prazo, você não será assistente de ninguém, você já será coordenadora da sua própria equipe. Aceita?

– Aceito. – As palavras brotaram da boca de Lúcia, sem ela nem pensar.

– Meninas... vocês não vão acreditar. – começou Lúcia após desligar o telefone.

– Senhorita Lúcia. Quem não vai acreditar é a senhorita. – falou a gerente – Venha até a minha sala.

Na sala da gerente estavam Júnior e vários papéis espalhados na mesa.

– Senhorita Lúcia. O senhor Medeiros fez toda a análise do nosso novo cliente e foi com surpresa que na apresentação, os dados não fecharam. Descobrimos que alguns dados foram cadastrados errados. – explicou a gerente colocando algumas folhas nas mãos de Lúcia – Gostaria que me explicasse o erro?

Lúcia olhou os papéis, eram as informações digitadas por Ane. Não podia entrega-la, pois era um trabalho seu. Por um momento, pensou que a colega havia feito de propósito, por saber que Lúcia também era apaixonada por Júnior. Mas nada disso era importante, pois ia mesmo pedir demissão.

– Foi um erro de digitação, senhora. É possível observar que são números próximos. Talvez pela necessidade de rapidez, isso tenha acontecido.

– A nossa sorte é que o cliente também havia repassado alguns dados incompletos e creditou o erro a isso. Mas a senhorita não terá a mesma sorte. Pode passar no departamento pessoal, está demitida.

– Sério? – Lúcia arregalou os olhos

– Tenho cara de quem está brincando? Eles já lhe estão aguardando. Peça para uma de suas colegas guardar suas coisas. Nos computadores dessa empresa tu não colocas mais a mão.

Lúcia levantou da cadeira a tempo de ver o sorriso de felicidade no rosto de Júnior. Abriu a porta e pediu:

– Clarissa. Guarda as minhas coisas em um caixa. Acabei de ser demitida.

As meninas levantaram num alvoroço, mas Lúcia não deu tempo delas falarem. Dirigiu-se ao departamento pessoal e assinou os papéis. Ficou sabendo dos valores que receberia e ficou feliz. Tinha que estar em Curitiba em um mês. Então teria tempo de sobra para providenciar tudo e pegar o fundo de garantia. Deixaria metade com a mãe, e o resto levaria para alugar um local com as meninas.

Quando retornou na sala, Ane chorava e Júnior a olhava com desdém. Clarissa lhe entregou a caixa e Lúcia a pegou com um sorriso:

– Obrigada, meninas. Mas não chorem, afinal, serei colega da Clarissa e da Soraya. Ane e Renata, quero encontrar vocês várias vezes antes de ir para Curitiba, não podemos deixar de fazer um festão de despedida.

– É brincadeira? – perguntou Ane.

– Não. O telefonema que recebi antes da gerentona me chamar era deles. Estou dentro também. Por isso – virando-se em direção a Júnior, Lúcia exclamou – agora tu podes pegar esse teu sorrisinho e o teu empreguinho de merda e enviar no cu.

Lúcia saiu gargalhando, enquanto Júnior derrubava café na mesa. Suas colegas não puderam brindar, mas também não seguraram um sutil sorriso que surgiu em suas faces.


Lúcia nunca se sentiu tão leve. Pegou o ônibus transbordando de felicidade. Por um momento uma voz interna quis insinuar que eles poderiam mudar de idéia, mas ela apenas balançou a cabeça e começou a fazer os planos para a mudança.

Olhou para o pequeno e antigo edifício em que morava. Mesmo da calçada, pode ver as cortinas do seu quarto balançarem suavemente. Foi tomada pela nostalgia que passou pelo hall de entrada, subiu lentamente os quatro lances de escada observando cada detalhe das paredes. Abriu a porta do apartamento em que morava e encontrou o olhar surpreso da mãe. Sem pensar, resumiu tudo em uma frase:
– Mãe pode comemorar. Estou indo embora de casa e do estado. Vou morar em Curitiba.