sábado, 31 de julho de 2010

Capítulo Quatro

Os diários de Manoela Galdos

“Diário Um

Olá querido diário. Sou Manoela Ribas, tenho dez anos e sou filha de Irina e Arnaldo Ribas. Meus pais são donos de uma fábrica de papel. Estudo em uma escola de pessoas ricas, mas não sou rica. Por isso me apelidaram de papeleira. Meu irmão não dá bola, diz que eles não são nada, mas eles ainda vão me tratar como uma princesa.”


“Diário Quatro

Hoje estou completando treze anos. Mas meu irmão estragou toda a festa. Ele engravidou uma empregada. Mamãe disse que se for um menino, ela irá perdoar, e ele será herdeiro de tudo. Não consigo compreender Dona Irina. Como pode permitir que Sílvio se case com uma qualquer?”


“Diário Cinco

É uma menina. Colocaram o nome de Joana. Achei que Dona Irina iria corre-los, mas não, permitiu que eles tivessem mais uma chance de terem um filho. Mas eu não darei essa chance. Agora que estou menstruando, tenho chance de lutar com o meu irmão.”

“Julios Galdos é um homem atraente. Doentio também, Pois com quarenta e cinco anos não desgrudava os olhos de uma ninfeta como eu, uma inocente menina de quatorze anos. Foi isso que facilitou tudo. Leva-lo até o jardim para mostrar as rosas, foi fácil e não precisei fazer nada para ele me tocar. Senti medo quando ele avançou e me tocou intimamente. O polegar acariciando o que, no futuro, será o bico dos meus seios. Quando me dei conta, ele levantava a minha saia e tirava a minha calcinha. Com as calças arriadas, ele me invadiu. Doeu. Sangrou. E ele se assustou. Me senti suja.”

“Valeu a pena. Estou grávida. Mamãe está horrorizada. Papai injuriado. Ameaçou matar Galdos, mas tudo se resolveu com o pedido de casamento. Em dois meses me caso. Ficarei escondida de todos. Pois Dona Irina não quer falatórios. Mas se tudo der certo, ela ficará orgulhosa do meu filho.”
“Diário Seis

Em 15 de maio nasceu João Felipe Galdos, único herdeiro dos Ribas e dos Galdos. Sim querido diário, único. Pois a vaca da esposa do meu irmão engravidou junto comigo, mas morreu no parto, ela e o filho. Henrique é o nome que colocaram no tumulo. Meu irmão Sílvio surtou. Pegou sua filha e foi embora."

“Diário Onze

Achei uma pedra no antigo quarto de meu irmão. Estou grávida novamente e precisava de um local para o bebê. Fazia cinco anos que ninguém, além das faxineiras, entravam ali. E lá estava ela, dentro da cômoda de Isabela, falecida esposa de Sílvio. Só não entendi a reação de mamãe quando a viu. Arrancou de minha mão e saiu correndo. Ela caiu nas escadas e quebrou o pescoço. Quando a vi, meu primeiro impulso foi ir até ela e recuperar a pedra, que coloquei em meu bolso. Só depois chamei por socorro. Agora estou olhando para esse triângulo gelado, e não tenho idéia de que mistério esconde.”

“Perdi o meu bebê. Acho que fui castigada, pois como minha cunhada, meu sangue lavou os lençóis durante a noite e agora, não posso mais ter filhos. Julios me chamou de incompetente e eu, o chamei de velho caduco. A dor é muito grande, até porque essa criança era muito diferente, ela era especial, foi feita com amor. Com todo o amor que sinto por Diogo. Sei que essa criança seria uma mistura nossa, talvez com os cabelos castanhos de Diogo e os meus olhos verdes, ou talvez com os meus cabelos vermelhos, iguais os da minha mãe. Minha mãe, que falta você me faz. Mas a culpa é sua, por ter inventado a idéia de que o herdeiro seria o filho que lhe desse o primeiro neto homem. Como sou infeliz.”

“Diário Treze

Entrei no quarto de Dona Irina hoje e, quem diria, mamãe também tinha diários. Comecei a ler e descobri coisas muito interessantes. Não sabia que ela havia morado em Minas Gerais. Nem que já tinha sido casada com um tal de Carlos. Ela também cita uma pedra, que ela chama de maldita. Uma pedra retangular com um reflexo semelhante a que encontrei no quarto do meu irmão. Agora entendo a reação dela. Diz ela que ganhou a pedra da sogra, que a odiava, e o presente trouxe muitas desgraças, entre elas a morte de Carlos”.

“Deus meu. Minha mãe teve um filho e o abandonou. Agora entendo o desejo do filho homem, ela queria algo para amenizar o sentimento de culpa. Por via das dúvidas queimei todos os diários, se descobrirem esse filho e ele tiver um filho homem mais velho que o babaca do João Felipe, meu sacrifício terá sido em vão”.

“Diário Vinte e Cinco

Estou doente, meu Deus. Muito doente. A febre me consome, os médicos não sabem o que é, nenhum remédio resolve. O que adianta todo esse dinheiro se irei morrer tão jovem? E quem diria, o imbecil do Julios irá sobreviver a mim, logo eu, que contava os dias para ele bater as botas e encontrar o meu verdadeiro amor. Embora eu ache que esse tenha sido Diogo, a quem agora estou indo encontrar. Coloco a pedra gelada sobre a minha testa, para ver se alivia. Ela poderia me dar sorte e devolver a minha saúde. Mas nem o sangue forte de minha mãe me faz lutar.”

“Pela primeira vez, desejei ter meus irmãos por perto. Sílvio, que não vejo a vinte anos, e esse desconhecido. João Felipe vai precisar de ajuda, é uma criança em forma de homem, mimado demais pelo pai. Se ninguém mais da família estiver por perto, o que vai ser desse menino? Meu último desejo é que ele arrume uma boa moça, jovem e bonita como ele, que o ajude a encontrar o caminho correto. Mas pra quem fez tanta coisas erradas, não sou merecedora de mais nada.”
“Cláudia, minha assistente particular, contratou um detetive pra mim. Sílvio está morto e meu outro irmão está no Rio de Janeiro. Vou tentar localiza-lo. Agora, vamos aos fatos estranhos do dia: a pedra estava quente e um gato avermelhado, de olhos verdes como os meus, apareceu no meu quarto, mas ninguém mais o viu. Mandei todos procurarem, pois odeio gatos. Preciso dormir, me sinto muito fraca.”

domingo, 18 de julho de 2010

Capítulo Três

São Paulo, Morumbi

– Vagabunda. Pilantra. Eu vou dar a volta por cima e você virá de joelhos, implorando por uma migalha de carinho.

João Felipe Galdos urrava na suíte que ocupava na mansão, produzindo ecos nas peças próximas. Revirando as gavetas, cofres e armários, constatava o inevitável: sua esposa e única fonte de renda, havia ido embora.

– O que ela esperava? Feia, gorda, velha... ninguém mais vai ter coragem de colocar uma aliança naquela mão ressecada . Muito menos trepar com ela. O que custava me deixar dar umazinhas com as mocinhas do clube? Maldita. – exclamava enquanto se dirigia ao outro - E agora? Quem vai sustentar essa casa? Não posso perder o único bem da minha família.

Como se levasse um soco, João se atirou para trás, caindo de costas na cama. “Estou cansado, estou muito cansado” pensou enquanto procurava o travesseiro mais próximo “amanhã... amanhã tudo será resolvido”.

O sol estava alto quando acordou. Pensou em pegar um robe, mas lembrou-se que estava de roupa. Tirou a camisa de seda amassada e a calça social. Entrou no banheiro e tomou um jato de água fria. Com a cabeça jogada para trás, deixou os olhos fechados enquanto a mente começava a trabalhar. Sentia-se como se tivesse bebido muito. Uma enxaqueca apertava-lhe os olhos e as pernas cambaleavam. Abriu a porta do Box, pegou uma toalha e procurou uma aspirina no armário do banheiro. Encarou-se no espelho. Para um homem perto dos quarenta estava bem, mas não o suficiente para competir com os jovens modelos.

Necessitando do colo da mãe, caminhou até a suíte principal da casa e deitou-se na grande cama. Manoela Galdos havia sido uma grande mulher, talvez por ser tão bela, inteligente e forte, morrera cedo, aos trinta e cinco anos, vítima de uma febre misteriosa. Após a morte da mãe, seu pai, um velho de sessenta e cinco, começou a namorar uma jovem de vinte e nela desperdiçou todo o seu dinheiro. Quando ele morreu, só havia restado a João a beleza dos traços aristocráticos herdados do pai e a mansão.

Mas foi a combinação do sobrenome Galdos, tradicional na sociedade paulista, com o corpo jovem e esbelto, somado aos olhos azuis e a mansão do Morumbi que atraíram a emergente Nádia Dias. Uma mulher de quarenta e cinco anos, gorda, dona de dez cachorros e de uma das maiores redes de hotéis do Brasil. Dinheiro fácil, se ele usasse a imaginação. E por isso, aos vinte e oito anos se casou com a mulher que lhe garantiria o sustento.

Pena que o ditado estava certo, tudo que é bom dura pouco, e num descuido, sua foto agarrado a jovem professora do clube que freqüentava foi parar na imprensa. Nádia havia engolido suas traições durante os dez anos, mas não poderia se sujeitar à humilhação de sua infidelidade ser pública. E lá se fora a sua galinha dos ovos de ouro.

Não tinha amigos a procurar, e mesmo que tivesse, nenhum o entenderia. Somente a sua mãe. Ela sim, que fizera a mesma coisa a trinta e oito anos atrás. Aos quinze anos ficará grávida de Julios Galdos, um homem de quarenta e cinco anos, o solteirão mais desejado da sociedade paulistana, e garantirá um sobrenome e a sua própria herança.

O sobrenome de agora nada adiantava. A casa estava vazia. Os empregados haviam ido embora com Nádia. E ele simplesmente não sabia o que fazer com a mansão.

– Madame Nádia decidiu ser gentil – disse o velho advogado - e não vai lhe exigir metade da mansão dos Galdos.

– Nem poderia – resmungou João – existe um documento dizendo que ela está fora da partilha, só um herdeiro meu teria direito.

– Pois bem – continuou o advogado – Madame lhe dará uma pensão.

– Pensão? – arqueou as sobrancelhas – Qual é o jogo Solano? Vamos lá, meu Velho. Diga.

– Não tem jogo nenhum Galdos. É apenas um pagamento. Graças ao seu sobrenome , ela se firmou na sociedade. Com isso, ela lhe dará uma pensão, não muito grande, durante dez anos. O valor não é o suficiente para sustentar essa casa.

– A vingança dela é a venda da mansão Galdos?
– Não. Ela não está se vingando – Solano encarou João de forma paternal – Assim como eu, Madame tem pena do senhor. Olhe a sua vida. Você não tem perspectiva nenhuma. – O advogado se levantou e foi até a janela mais próxima, onde a vista dava para um jardim descuidado. – Pense como uma chance de dar algum sentido na sua vida. De ser um homem de verdade e tomar as rédeas do seu destino.

– Não sabia que era psicólogo, Solano.
– Não seja irônico, João. Fui amigo dos seus pais e vi a grande bobagem que fizeram contigo. E não creio que você seja merecedor da sorte de ter encontrado alguém como Nádia, que merecia muito mais respeito da sua parte.

– Mas agora você pode dar esse respeito a ela, Solano – Enquanto João sorria o rosto do velho foi tomado de uma grande vermelhidão – sei da sua paixão por Nádia. Mas ela queria um sobrenome que lhe abrisse as portas da sociedade. Agora você poderá conquista-la e ambos serão felizes para sempre.
– Não é hora para brincadeiras, João. De qualquer forma, você é quem sabe. Daqui a uma semana passe em meu escritório para assinar os papéis.


Duas semanas depois, João recebia a notícia que a mansão havia sido comprada. Sabia que era Nádia, mas não podia fazer nada. Não tinha dinheiro para manter a mansão, sua pensão era suficiente apenas para alugar um flat, não para manter uma casa de dez quartos. E se aplicasse o dinheiro da mansão, talvez não precisasse se preocupar em trabalhar. Afinal, não sabia fazer nada, nunca teve necessidade de trabalhar ou fazer alguma faculdade.
Naquela tarde iria receber alguns representantes de lojas, pois nisso iria surpreender Nádia. Vendera a casa para ela, mas não os móveis. Havia avisado a imobiliária que, com exceção dos móveis da cozinha, alguns armários de banheiro e closets, o restante seria vendido e não seria entregue para o novo morador da casa. Só que ele conhecia Nádia e sabia que ela havia comprado de olhos fechados, sem perguntar absolutamente nada.

Os dias passaram rápidos, João encaixotava peças pequenas enquanto as grandes eram levadas. Até chegar o dia D, o dia de abrir o quarto de sua mãe e vender o que estava lá. Foi na venda das roupas que achou o cofre, escondido entre os milhares de sapato. Após a venda e retirada dos objetos, ficou naquele espaço vazio olhando para a pequena porta metálica. Sabia a senha. Sua mãe havia repetido aqueles números incontáveis vezes no seu leito de morte. Na época não havia entendido o que eram, finalmente sabia sua serventia.

Com cuidado, foi informando a combinação, após o último número, ele ouviu o click e a porta se abriu. Vários livros, diários, se corrigiu, apareceram. E uma pedra em formato triangular, que João lembrava de ter visto sobre a testa da mãe logo no início da doença. Nunca a esquecera pelo reflexo ora amarelo ora rosa que ela apresentava.

Guardou tudo com cuidado. No outro dia uma caminhonete viria buscar suas coisas e leva-lo para o seu novo lar. Entregaria as chaves do lugar em que havia nascido. Sua mãe deveria estar se revirando no tumulo por causa disso. Sem solução, desceu as escadas e admirou tudo a sua volta, como se fosse a primeira vez. Colocou a caixa, com os pertences de sua mãe, no canto perto da porta, junto com outras coisas, e com a pedra na mão, foi até a janela.

Lembrou da morte de sua avó materna. Na verdade, foi naquele dia que vira aquela pedra pela primeira vez. Deveria ter uns cinco anos e ela estava nas mãos de sua mãe, que acompanhava os reflexos amarelos e rosas através da luz da janela, quando sua avó entrou na sala e deu um grito. Sem nenhuma explicação, arrancou a pedra da mão de sua mãe perguntou gritando onde diabos havia arrumado aquilo. Pela primeira e única vez, virá a mãe acuada, mas não lembrava da resposta, apenas que sua avó saiu furiosa para a rua, de onde nunca mais voltou. Ela tropeçou nos degraus da escada e quebrou o pescoço. Sua mãe, antes de chamar o médico, recolheu a pedra e guardou no bolso lateral do vestido.O enterro foi triste e o primeiro de muitos, já que seus avós paternos seguiram o mesmo destino três anos depois. Sua família havia sido reduzida a três pessoas e agora era apenas uma: ele.

domingo, 27 de junho de 2010

Copa e dieta não combinam

Embora eu não tenha mais escrito nada sobre o assunto, a minha luta contra a balança continua e eu estou ganhando. Mas o grande problema é que quanto estabilizei nos 52 kilos chegou a Copa.

Qual o problema? Bom... quando uma mulher gosta (e muito) de futebol, isso significa que em caso de nervosismo, lá se vão as unhas... caso se queira a preservação das queridas, elas são substituídas por pipoca, rapadurinhas, chocolates... e a academia acaba sendo "matada" nos dias dos jogos, afinal... depois que já se está em casa, não se vai sair.

O objetivo continua... 48 kilos até dezembro, ainda bem que em julho a copa acaba.

Capítulo 2

Rio de Janeiro, favela Porto Seco

“Sacode a bundinha, dá uma reboladinha, desce e vai... vai...vai...vai”

Doca estava encolhido entre as paredes de madeira podre, espiando pelas frestas as meninas dançando o funk da moda. Só de calcinha, elas se exibiam para o Bagão, traficante e dono da área. Embora todos soubessem que Bagão era viado, ele insistia em se fazer de homem. Pelo menos seus inimigos acreditavam.

Depois de quinze minutos acocado, Doca sentiu o pé esquerdo formigar e decidiu sair dali. Se ele fosse achado, Bagão faria ele descer... e a descida não seria tão indolor quanto das cachorras que se exibiam.

Desceu as escadas devagar e se dirigiu a uma mata próxima. Olhou para o céu, a mãe deveria demorar mais umas duas horas para chegar. Era dia de fazer faxina na zona sul.

A criançada jogava bola nos espaços entre os barracos, os olheiros observavam o movimento da polícia e os comerciantes ficavam de olhos nos pequenos, para evitar os furtos. Mas isso não era visível depois das duas grandes árvores.

Doca, nascido Eduardo, sentia que ali era um mundo à parte. Durante o dia ninguém ia ali, mas a noite ficava lotado de jovens casais populando ainda mais a favela e de filhinhos de papai procurando algo para “viajar”.

Depois de cinco minutos de caminhada, havia um riacho. Uma água estranhamente cristalina que oferecia um banho melhor que chuveiro. Doca tirou a roupa e mergulhou. Lembrou da história que a professora havia contado de manhã e se imaginou um mergulhador procurando tesouros. Começou a procurar pedras... achou tampinhas, um brinco de pena e camisinha. Foi se aproximando de um buraco, que formava uma falsa caverna, naquele ponto a água era mais baixa e Doca foi obrigado a ficar de pé. No primeiro passo com o pé direito, sentiu uma dor no dedão. Pegou a pedra que o machucou, tinha o estranho formato de triângulo e com a luz, tinha um reflexo amarelo escuro e rosado.

Sentado na beira da caverna, ficou observando o seu pequeno tesouro. “Hoje é o meu dia de sorte” pensou, com um sorriso nos lábios “e sei que hoje tudo vai mudar”.

O sol já desaparecia no horizonte quando Doca voltou até o barraco. E preparava para dar uma desculpa esfarrapada, mas a mãe ainda não havia chegado. Pegou os cadernos e começou a fazer o tema de casa.

– Oi meu bem.

– Mãe, que demora – Doca se assustou ao ver o estado da mãe. Ela estava toda suja, no rosto uma mancha roxa. – O que houve?

– Nada meu filho. – tentou sorrir, enquanto limpava uma lágrima de seus olhos – Desculpe, não consegui trazer nada de comer. Mas acho que tem um pouco de farinha ainda.

– Mãe. O que aconteceu?

– Nada meu filho. Você é uma criança, não se preocupe com isso.

– Eu já tenho dez anos mãe. Quem fez isso?

– A polícia nos confundiu com os bandidos... nada de mais.

– Como nada de mais, mãe?

– Somos favelados filho. Mas se você estudar, vai virar doutor. E tudo isso vai mudar. Vamos sair daqui.

– Devíamos falar com o Bagão.

– Não. O Bagão é bandido. Você não vai ganhar nada além de um tiro no meio da testa com ele.

– Como o meu pai?

– Isso. Como o Josias. Mas tenha calma Doca, amanhã vou ver uma vaga em que a família disponibiliza uma casa. Se eles e aceitarem, vamos nos mudar para perto da praia.

– Eu vou poder ir junto?

– Sim... nossa vida vai começar a mudar. Você não vai acabar como o Josias nem ser ignorante como eu.

– Você não é uma ignorante mãe. Você é uma grande mulher. – Doca se aproximou, abraçando a mãe com cuidado.

– E você é um grande filho. – Jussara sussurrou, engolindo a vontade de chorar.

Doca ficou um bom tempo abraçado na mãe. Gostaria de bater no policial que a machucara. Mas tudo ia dar certo, e segurando firmemente a pedra com as duas mãos, rezou a noite inteira para que a mãe conseguisse o novo emprego.

Jussara olhava o filho dormir e torcia os dedos em desespero. Bagão queria seu filho como ajudante nos pontos de drogas. Chegara a bater nela, cobrando a dívida de Josias, que morreu em um confronto com a polícia. Os três quilos de cocaína não valiam a vida de seu filho e a sua última chance era a entrevista de emprego no outro dia.

Não tinha ninguém. Josias havia sido abandonado pela mãe, e contrariando a vida na favela, conseguiu ultrapassar a casa dos cinqüenta anos. Ela tinha apenas dezessete. Ele a engravidou e morreu. Sua mãe tentou ajudar, mas não agüentou quando seu quinto irmão morreu nas mãos do tráfico. Agora era ela e o Eduardo.

A luz que atravessava as frestas de madeira indicava a hora de levantar. Jussara amarrou os longos cabelos negros, vestiu sua melhor blusa e a calça jeans. Quando pensou em chamar Doca, encontrou um par de olhos castanhos a observando. Calado, ele se aproximou e pegou a sua mão, colocou algo gelado na palma dessa, onde Jussara encontrou uma estranha pedra em formato triangular.

– De onde você tirou isso Doca? – perguntou.

– Do riacho. – Jussara levantou as sobrancelhas. – Juro mãe. Achei lá. Perto da caverna.

– Doca mentir e roubar são coisas feias e não vão de levar a lugar nenhum. – disse com voz calma, mas preocupada.

– Eu sei mãe. E não tô fazendo nada disso. – Doca segurou o choro antes de continuar – Juro pelo pai.

– Tudo bem querido – Jussara abraçou Doca – eu acredito em você. Perdoa a mãe, essa entrevista tá me deixando nervosa.

– Leva a pedra junto mãe. Vai te dar sorte.

Jussara guardou a pedra na bolsa e deu um último beijo no filho. Chegou quinze minutos antes da hora marcada. Era uma bela casa de dois andares, com piscina e muito espaço.

– Bom dia! – disse uma jovem na porta – Você deve ser a Jussara.

– Sou eu mesmo.

– Por favor, entre. Venha até a sala para conversarmos.

O tapete era tão grosso que abafava os passos. Jussara notou um gato, de pêlo avermelhado e olhos muito verdes, espiá-la debaixo da escada. Mas não pode observar muito, pois sua anfitriã já sentava em uma grande poltrona bege.

– Sente-se Jussara, você me foi muito bem recomendada pela Carla.

– Bondade dela senhora. A Casa da Dona Carla era muito fácil de ser mantida.

– Não me chame de senhora. – e surpresa sorriu – Desculpe, não me apresentei, me chamo Vanessa. – E apontando para a casa – Apesar de grande, não temos filhos, então o serviço é bem tranqüilo.

– E de bicho, a senhora só tem o gato?

– Me chame de Vanessa ou você. Não temos bicho. Você deve ter visto o gato da vizinha. Mas não tenho nada contra crianças ou animais. Só não temos tempo, nem eu ou meu marido.

– A Dona Carla me disse que é para morar aqui?

– Sim. Temos um mini-apartamento grudado na cozinha. Tem uma pequena sala, um quarto e um banheiro. A cozinha você pode usar a nossa mesmo.

– Não sei se a Dona Carla falou que eu tenho um filho...

– Sei sim. E não tem problema. Exceto nos eventos de negócio do meu marido, seu filho poderá aproveitar a piscina, o pátio e tudo mais.

Jussara saiu com tudo acertado. Foi para a parada listando tudo o que iria levar. No outro dia, ela e Doca estariam em uma casa de verdade. Dentro do ônibus começou a se despedir de cada vizinho. Não iria contar a ninguém o seu novo endereço. Bagão não teria notícia deles. Com um suspiro apertou a bolsa e lembrou da pedra. Ela realmente lhe dera sorte. Foi no momento em que a beijou que escutou a freada.

Doca aguardava ansiosamente o retorno da mãe e por isso não notou a movimentação de ambulâncias. Estava quase roendo as unhas dos pés quando Dona Eva entrou no barraco com os olhos inchados.

O motorista de um caminhão carregado de toras de madeira havia perdido o controle. Da sua mãe, só havia sobrado a bolsa e a pedra. Todos falavam em velório, tragédia e o futuro do menino quando Bagão chegou.

– Não se preocupe Eduardo. – disse sério – Sempre fui muito amigo do Josias e da Jussara e vou cuidar de ti. – completou passando a mão no cabelo de Doca.

Ninguém ousou discutir. As poucas roupas de Doca foram colocadas em uma sacola com o símbolo do Flamengo. Dona Eva ficou encarregada de fazer os preparativos para o velório de Jussara e Bagão levou Doca para o seu barraco.

Durante três horas Doca assistiu a negociações de drogas, armas, licença para negócios e reclamações de prostitutas. Quando todos se foram, Bagão se dirigiu a ele:

– Mermão. Já que você vai depender de mim, vai fazer umas coisinhas.

– Você quer que eu venda drogas na escola?

– Não. Nesse ponto a sua mãe tinha razão. Você é esperto. Você vai estudar de dia e me agradar à noite.

Dizendo isso Bagão tirou as calças e encarando Doca, sorriu maliciosamente.

– Me chupa.

Doca ficou paralisado. Sabia que nem o pai nem a mãe iriam querer aquilo. E não era por estar sozinho que se entregaria a uma vida fácil assim.

– Não. Eu vou embora.

– Você não vai a lugar nenhum moleque – Bagão pegou Doca pelos cabelos – você vai ficar aqui, a favela é a sua casa e agora eu vou cuidar de você e você vai dar prazer pra mim. – dizendo isso, empurrou a cabeça de Doca abaixo de sua cintura.

Doca nunca soube dizer como aquela faca foi parar na sua mão. Mas foi rápido em passa-la na genitália de Bagão, que arregalou os olhos quando viu seu pênis cair inerte no chão, enquanto urrava como um animal.

Enquanto Bagão rolava no chão, espalhando sangue no jornal antigo que servia de piso, Doca pegou sua sacola de roupa e a bolsa da mãe e saiu correndo. Não demorou muito para os capangas de Bagão saírem atrás, mas Doca já estava chegando a caverna.

Passou a noite ali, escondido. Quando o sol nasceu, ele começou a buscar uma saída. Sua única certeza era que tinha que ir embora do Rio. Seguiria a primeira estrada que encontrasse. E depois de horas de caminhada, chegou a Duque de Caxias.

sábado, 26 de junho de 2010

Capítulo 1 - Continuação

O bar era pequeno, todo colorido e com um mesanino. Sentaram em uma mesa no canto, perto do ar condicionado. Desistiram e acabaram trocando de mesa, era melhor o calor do que o barulho. Eram dez da noite quando a garçonete trouxe um pequeno bolo com uma vela. Suas colegas começaram a cantar parabéns e o restante dos clientes acompanhou. Fechou os olhos e fez o único desejo que lhe veio a mente.

– O que você desejou? – perguntou Ane.

– Um milagre.

Suas colegas se entreolharam, Renata pegou uma sacola e de lá tiraram uma bonita embalagem.

– Bom... acho que milagre não faz.. mas diz o vendedor que atraí energias positivas.

Lúcia abriu com cuidado o pacote azul com laço dourado. Dentro, havia uma pedra de formato triangular. Ao retirar o pequeno objeto do pacote a luz fez com que reflexos amarelo escuro e rosas surgissem.

– É lindo. – agradeceu com um sorriso


Quando chegou em casa, todos dormiam. Caminhou silenciosamente até o quarto e colocou a pedra em uma cômoda próxima a sua cama. Vestiu o pijama e antes de se deitar, passou o polegar pela parte áspera da pedra e pediu “Me ajude a encontrar um milagre”.

O ar que respirava estava quente e pesado, quase tão pesado quanto seu peito. Por um breve instante, sentiu-se tomada por uma tristeza. Abriu os olhos devagar e se deparou com um par de olhos verdes. Gritou.

– O que foi isso? – perguntou a mãe na porta do quarto.

– Cadê? – Lúcia estava sentada na cama, olhando para todos os lados.

– Cadê o que Lúcia?

– O gato... o gato que estava aqui na cama, olhando pra mim?

– Enlouqueceu Lúcia. O que você andou bebendo ontem?

– Nada mãe. Tinha um gato em cima de mim. É sério.

– Tá. Então levanta e te veste, antes que se atrase.

Afastando as cobertas, colocou os pés no chão frio. Deu uma olhada embaixo da cama, ao levantar a cabeça, sem perceber, concentrou sua visão no presente ganho. Com a claridade da janela, o pequeno triângulo tinha reflexos dourados e rosas. Era uma peça bonita. E se as meninas estivessem certas, talvez trouxesse a sorte que tanto precisava.

Encontrou a mãe tomando café e lendo o jornal. Como de costume, não tomou conhecimento da sua presença. Lúcia foi até a cozinha e se serviu de uma xícara de café. Não tinha pão, muito menos um bolo. Ainda se surpreendia pela falta de carinho da mãe, nem um beijo, abraço ou desejo de parabéns.

Sabia que isso não tinha haver com a morte do pai ou dificuldades financeiras, sempre foi assim. Chegou a pensar que era adotada, mas a marca em formato de lua crescente, no braço esquerdo, tornava inegável aquela relação.

– Bonita a pedra que você ganhou – disse a mãe.

– Como? – Lúcia reagiu surpresa – ah sim... foi um presente das minhas colegas.

– Elas poderiam ter te dado algo mais útil, como um livro.

– Um livro é muito caro, mãe. O presente é apenas uma lembrança.

– Não, aquilo é uma pedra de verdade. É gelada mesmo depois de ficar um tempo na mão. Não é coisa barata.

– Bom... foi um presente das minhas colegas, não cabe a mim escolher nem a senhora opinar. Afinal, não lhe diz respeito.

– Mais respeito, menina.

– Elas pelo menos se lembraram. E a senhora, nem um abraço?

– Deixe de bobagens. Vá escovar os dentes e te manda. O ônibus passa em dez minutos.

Joana esperou a filha largar a xícara na cozinha e correr para o banheiro. Lúcia era como ela quando jovem, sem graça e sonhadora. Pelo menos não havia cometido o mesmo erro de engravidar do primeiro homem que se interessou por ela. Mas não conseguia amar a filha, ela era a lembrança de todos os seus erros. Como seu pai havia lhe dito, se era para engravidar, que fosse de um homem rico, mas nem pra isso servia. Fechou o velho robe e foi até o quarto do filho. Ele sim, ele era o seu único acerto.

– Querido. Levante, hora de ir para a aula.

Lúcia sabia que em sua família, apenas filhos homens eram valorizados. Era o que dizia o seu avô, que sempre contava a história de que perdera a herança por ter tido uma filha mulher e que todo o dinheiro havia ficado com a irmã, que havia parido um varão.

“Besteira” pensou Lúcia, enquanto desviava do buraco da calçada, “vovô bebia e depois inventava essas histórias. E a burra da minha mãe acredita até hoje. Se fosse verdade, teríamos conhecimento dessa gente.”

Capítulo 1

Porto Alegre, nos dias de hoje

– Não sou nem de direita nem de esquerda – declarava Lúcia em alto bom som – estou do lado de quem me proporcionar um bom salário, casas, carros e claro, viagens anuais a Paris.

–Não posso continuar ouvindo isso – reclamou o colega que sentava a sua frente – quem a escuta, pensa que é uma burguesa e não uma jovem que estuda e trabalha.

– Ai que você se engana – comentou uma morena mordendo a tampa de uma caneta – se ela fosse burguesa ela estava fazendo e não falando.

As cinco mulheres que estavam na sala riram. Junior deu os ombros e fixou seu olhar no relatório que se apresentava na tela. Já estava acostumado aos papos femininos, na segunda: tpm, terça: trânsito, quarta: tv, quinta: desejo de ficar rica e sexta: homens. Só tinha que agüentar mais três horas de sonhos frustrados e um dia sobre homens sarados e charmosos para chegar a sua cerveja.

– Deixa essa mala pra lá – brincou uma das garotas – me diga Lúcia, aonde iremos comemorar o seu aniversário?

– Ai Ane, hoje todas temos aula.

– Mas hoje podemos abrir uma exceção, não é Renata?

A morena concordou, tirando a caneta da boca.

– Claro! Clarissa e Soraya já reservaram uma mesa na Calçada da Fama.

– Não – negou Lúcia – Lá é muito caro.

– Uma vez na vida outra na morte não irá te deixar miserável – gritou Clarissa – Além disso... a fatia de bolo é por nossa conta.

– É só não encher a cara – piscou Soraya.

Lúcia não conseguiu resistir, ligou pra casa e avisou a mãe. Pensou ter ouvido um suspiro de alívio, dessa forma desobrigava a mãe a gastar com qualquer coisa. Não que a mãe fosse avarenta, longe disso. Mas, desde a morte de seu pai, elas viviam com dificuldades financeiras. E ainda havia o irmão, que com apenas quatorze anos, não podia trabalhar e estava tendo que se readaptar a nova realidade.

O relógio bateu seis horas, Junior conversou rapidamente com Renata e sumiu. Lúcia se dirigiu ao banheiro. Quando começou a trabalhar na J&J consultoria, ha dois anos atrás, se apaixonara por Júnior, mas esse nunca tomara conhecimento de sua presença. Soltou os cabelos castanhos e abriu a necessarie. Enquanto passava o lápis para destacar os olhos também castanhos, lembrava de Clarissa dizer que achava que ele era bicha. Quando Ane discordou rapidamente, acabou em uma armadilha e confessando um relacionamento relâmpago com o coordenador.

“Logo em seguida ele arrumou uma gringa em Bom Retiro, então ele fica galinhando nos bares durante a semana e nos sábados e domingo ele desfila com sua loira metida a top model”.

Observando o corpo magro no espelho, Lúcia sabia que não era feia, mas para modelo também não servia. “O que adianta? Ele nunca vai me enxergar mesmo. Caia na real, você está fazendo 26 e não dezesseis” reclamava baixinho apontando o dedo para a própria imagem “se eu continuar me criticando assim, daqui a quatro anos será uma balzaquiana solteira e totalmente encanada”.

– Vamos garota – disse Soraya abrindo a porta do banheiro – Já está linda. Se fizer mais alguma coisa, não vai sobrar nenhum pra mim.

domingo, 9 de maio de 2010

Prólogo - Página 6

– Imagino que queira ficar com o último objeto que ele carregava – disse enquanto colocava a mão na abertura e segurava a pedra.

– Objeto? – perguntou Elvira, tentando se esquivar de Irina. Mas seus olhos se arregalaram quando viu a pedra saindo da pasta de seu filho – Não... Não... era para você ficar com ela. Você o matou!

– Não. – Corrigiu Irina – Você o matou. Assim como matou o seu neto. Agora ela é sua. – disse com calma, virando as costas, mas num último momento, se virou – ah... eu não quero nada de vocês.

– Você não tem direito a nada, mulherzinha vulgar.

– Tenho – respondeu Irina – tenho o direito de saber que você nunca mais irá dormir em paz.

Irina virou as costas para Elvira e caminhou em direção a saída do cemitério. Esta, por sua vez, num ato de fúria atirou a pedra contra a lápide, quebrando-a em três triângulos.