domingo, 26 de setembro de 2010

Capítulo 8

Belo Horizonte, Cidade Jardim

A rua continuava a mesma da sua infância, as ruas arborizadas, os casarões e seus jardins, o tradicional colégio Loyola e seus irrequietos alunos, o museu Abílio Barreto. O engraçado é que nada disso a atraia.

Era apenas uma criança e percorria, junto com a mãe, as padarias, os pequenos mercados e as lojinhas procurando comprar tudo que estava na lista de madame Elvira, e depois, de madame Cristina.

Isso havia ficado em sua memória, o cheiro dos pães quentinhos, as velas coloridas, o perfume de madame Elvira, a dor de madame Cristina.

O carro parou na frente da mansão branca, que hoje era azul. Mas Vivian nunca iria conseguir se referir a ela de outra forma. Relutou muito em retornar ali, só que não podia negar o último pedido de sua mãe. O de terminar com tudo aquilo.

A corretora da imobiliária abriu os portões rapidamente, estava em pé, ereta, vestida com um comportado terninho marrom, com sapatos igualmente marrons. Um sorriso profissional nos lábios, preparada para convencer.

“Guarde sua lábia” pensou Vivian quando o motorista abriu a porta. Madame Elvira ficaria surpresa em saber que a negrinha que corria pelo jardim agora era uma importante empresária. Sorriu com essa idéia de que agora, ela estaria se revirando no tumulo, tão preconceituosa, jamais iria admitir que alguém de classe inferior fosse dona de sua casa.

– Boa tarde Senhora Mendes. Sou Mariana, a corretora.

– Muito prazer, Mariana.

– O seu marido não veio junto?

– Ele e as crianças estão em Londres – sorriu e explicou – eles já estão com mais de vinte anos, mas ainda acho que eles são crianças. As minhas crianças.

– Claro. Creio que toda mãe é assim. Ainda não sou mãe, mas a minha está sempre na volta.

– Isso significa que você é uma boa filha, Mariana. – Olhou em sua volta – Mas o que você tem a me dizer sobre a casa?

– É uma casa excelente. Como a senhora pode ver, o jardim está muito bem cuidado. Seguindo esse caminho – indicou com a mão o caminho em mármore carrara – e dobrando a esquerda, é possível chegar aos fundos onde estão à piscina, o jardim de inverno e um salão de festa...

– Piscina? – interrompeu Vivian – A casa passou por reformas? – Vivian se lembrava que o doutor Adriano tinha medo de água, por essa razão, nunca construiu uma piscina.

– Só na parte de fora. O último dono, apesar de não morar nela, achou que algumas melhorias no fundo da casa, que não tinha nada, iriam valoriza-la.

– Hum... alguém morou aqui, depois da família Ribeiro Melo.

– Sabe que não. Isso é uma curiosidade sobre a casa. Todos os que compram, a reformam, mas nunca chegam a morar.

– Realmente curioso.

– À direita temos a garagem, cabem até sete carros cobertos e mais uns cinco descobertos. A senhora prefere começar pela parte externa ou quer olhar a parte interna?

– Quero olhar a parte interna.

A corretora abriu a porta principal, ainda era original, Vivian pode observar que a moça teve que colocar um pouco mais de força para empurra-la.

– Como à senhora sabe, ela já vem mobiliada. Quase todos os móveis são originais. Posso tirar os lençóis se a senhora desejar. A casa foi toda limpa, então não tem o risco de levantar poeira.
– Não é necessário. – Vivian negou enquanto balançava a mão. Podia ver, mesmo com os lençóis que o grande sofá branco continuava lá. Assim como a cristaleira. Sabia que não guardava mais nada ali, madame Cristina levou todos os cristais que ali se encontravam. A fina televisão na parede dava um toque moderno em uma parede pertencente ao século passado. Vivian riu. Ela também era do século passado.

– Nas proximidades, a senhora irá encontrar salão de beleza, padarias, restaurantes, antiquários, supermercados, agências bancárias... e mesmo com tudo isso, é um bairro extremamente tranqüilo. Ter uma casa aqui é um sonho de consumo para qualquer morador de Belo Horizonte.

“E apesar disso, ninguém habita essa mansão” pensou Vivian.

Caminharam por toda a casa, até chegarem ao quarto principal. Com cuidado Vivian se aproximou da parede no qual a cama ficava encostada. Era o mesmo papel de parede. Ninguém o tocara.

“Só você pode acabar com isso Vivian” as palavras de sua mãe vieram em sua cabeça.

– Vou ficar com ela. – disse se virando para a corretora.

– Que ótimo. A senhora fez um excelente negócio.

–Tenho certeza que sim. – puxou uma cadeira e abriu a bolsa – Conforme o Cândido, dando o sinal, eu já poderia ficar na casa. O acordo persiste?

– Claro. O Cândido, meu gerente, já havia me passado essa particularidade.

– Bom. – Vivian começou a preencher o cheque. – Não gostaria de ficar em um lugar impessoal, como um hotel, tendo comprado uma casa dessas.

– Claro – a jovem concordou rapidamente – vou providenciar os papéis o mais rápido possível.

Despediram-se. Vivian indicou a garagem para o seu primo Antônio, que estava fazendo o papel de motorista, mas na verdade iria ajuda-la em sua missão. Eles precisavam acha-las, todas elas.
Vivian ainda se lembrava da noite anterior a morte de madame Elvira. Todos tiveram que sair de dentro da casa. Inclusive doutor Adriano. Como não tinham para onde ir, ela e sua mãe ficaram escondidas em uma peça junto à garagem. A meia-noite, todas as luzes da casa foram acessas. Os gritos de madame Elvira eram ouvidos dali. Vivian não entendia o que ela falava, mas sabia que não era bom, pois sua mãe estava com os olhos arregalados.

No outro dia, doutor Adriano a encontrou morta na grande cama de casal que compartilhavam. Fazia apenas um mês que seu jovem filho Carlos havia morrido e o homem ficou numa tristeza profunda.

Doutor Adriano se recuperou apenas um ano depois, quando encontrou Cristina, uma jovem viúva que estava em Belo Horizonte a passeio. O inesperado aconteceu e eles se apaixonaram. E todos sabiam que esse amor era verdadeiro, pois ambos eram muito ricos. Viveram cinco anos na casa, mas o casamento de desgastava com os abortos anuais de madame Cristina.

Quando tinha dez anos, a mãe sentou Vivian em um dos bancos da cozinha e disse: “Querida, não se assuste com o meu cabelo quando eu voltar da conversa que terei com madame Cristina e doutor Adriano. E vá arrumando as nossas malas”.

Quando sua mãe voltou, seus cabelos estavam totalmente brancos. Uma semana depois, todos se mudaram para Recife. Lá, madame Cristina teve três filhos, mas doutor Adriano só viveu cinco anos, a cada filho que nascia, ele definhava mais. Nenhum médico detectou a doença que o afligia.
Mas madame Cristina recompensou sua mãe, que negou qualquer coisa pra ela e pediu estudo para a filha. Assim, Vivian foi para boas escolas e acabou administrando os negócios de madame Cristina junto com os filhos dela. Não era empregada, era sócia.

E essa era a razão de Catarina, sua mãe, achar que, depois de toda a sorte que tiveram, deviam isso. Acabar com toda a maldade de Elvira.

– Hora de verificar se mamãe estava certa. – disse para Antônio.

Vivian pegou uma maleta marrom. Com calma, entrou na casa e se dirigiu até as escadas. A cada degrau que subia, sentia o coração se apertar. Tomada de uma ansiedade súbita, acelerou seus passos e entrou novamente no quarto principal. Foi até uma pequena mesa de madeira e colocou a maleta sobre ela. Abriu-a e de lá tirou um livro com uma capa verde desbotada e dois vidros transparentes, um, com líquido amarelo, e outro, com um líquido vermelho. Antônio entrou no quarto, em suas mãos, uma vassoura e um balde com água. Vivian colocou parte do líquido amarelo no balde, e esse tornou a água amarelada. Arredaram a cama e retiraram o papel de parede ficando apenas uma tintura branca, onde o líquido vermelho foi atirado. Ao entrar em contado com a cor branca, ele se tornou rosado e a seguinte frase surgiu:

“Qwas l i sol u mwl ddu”

– Bingo. – Antônio exclamou.

– Me alcance a máquina fotográfica. – Vivian pediu sem tirar os olhos da parede. Sentiu Antônio colocar o equipamento em sua mão. Com cuidado, ajustou o zoom e pressionou o botão para capturar a frase. Depois, conferiu a nitidez dos símbolos.

– Pode fazer. – pediu.

Após ouvir suas palavras, Antônio molhou a vassoura no balde e começou a lavar a parede. Depois de seca, Vivian atirou novamente o líquido vermelho, e nada apareceu.

Desceram até o escritório, Viviam ligou o notebook e nele conectou a máquina fotográfica. Com a foto ampliada na tela, abriu o livro com cuidado. Folheou as páginas, procurando cada símbolo, e aos poucos, a frase começou a lhe fazer sentido. Quando terminou, sentiu o corpo gelado. Olhou para Antônio e pronunciou em voz alta:

“Mortos são os gerados em minha cama.”

domingo, 19 de setembro de 2010

Capítulo Sete

São Paulo

João colocou os diários de lado. Nunca lhe passara pela cabeça que não era o filho sonhado por sua mãe. Até ela o julgava um mimado. Seria ele realmente um nada? Um aproveitador barato de mulheres de quinta categoria? Estava sendo injusto. Nádia nunca havia sido uma mulher de quinta, e se fosse honesto, confessaria pra si mesmo que ela casou por amor, por acreditar nas palavras dele, o resto veio pela falta de respeito.

Levantou da poltrona e olhou para o envelope fechado. Ali estava a chave para encontrar o resto da sua família. Mas queria isso? E se eles quisessem parte do dinheiro da mansão?

“Não. Se eles soubessem já teriam vindo atrás há muito tempo.” Foi até o bar e se serviu de um copo de uísque. Resolveu não procurar ninguém. Ficaria com as pessoas de sua classe. Sairia. Iria ao teatro. Freqüentaria a academia e aceitaria todos os convites para as festas. Olhou-se no espelho, era um homem alto, quase um metro e noventa de altura. Seus cabelos negros contrastavam com a pele extremamente branca e com os olhos muito azuis. O rosto quadrado e aristocrático lhe dava uma certa beleza. Assim como o corpo, embora esse não estivesse tão atlético.

Colocou os diários de sua mãe em uma caixa e guardou em um armário próximo. Pegou o envelope ainda fechado, o último enviado pelo detetive quando sua mãe já estava morta, abriu a primeira gaveta da mesa de escritório e ali o deixou repousando.

João chegou bufando em casa. Havia levantado cedo e ido a academia. Sua inscrição havia sido cancelada: não era mais bem vindo. Acabou indo para uma de classe média, onde ninguém sabia quem ele era. Mas não era a mesma coisa. No seu restaurante preferido, apesar de haver mesas vazias, lhe informaram que não havia lugares disponíveis. Tentou vários outros e obteve a mesma resposta. Terminou sentado em uma calçada comendo um cachorro-quente.

Passou a tarde vagando, ao entardecer, voltou ao flat e se arrumou, foi ao teatro e as pessoas, antes amigas, o ignoraram. Estava sozinho. Por culpa de Nádia. Nem ele pensaria em uma vingança tão perfeita.

“Não nasci para ser sozinho” pensava enquanto abria a gaveta e tirava o envelope. Rasgando o papel pela lateral, tirou de lá duas folhas. Na primeira, referências a Silvio. Na segunda, ao filho ilegítimo.

O irmão falecido, Silvio Ribas, tinha deixado família em Porto Alegre. Já o filho ilegítimo se chamava Josias e não tinha sobrenome. Morava em um morro no Rio de Janeiro.

“Pobre” pensou João “não preciso de um pobre, mesmo sendo o meu tio”. Tio Sílvio estava morto, sua filha Joana, havia casado com um pedreiro e tinha uma filha pequena. “Outro pobre” pensou João.

Mas a sensação de solidão o invadia. Seus amigos o haviam abandonado. Os convites para festas sumiram. Seu sobrenome não significava mais nada. Não na pessoa dele. Nádia continuava saindo em todas as colunas sociais dos jornais paulistas, sendo consolada por toda a sociedade paulista “que deve chamá-la de cornuda pelas costas e na sua frente dizer que agora ela está melhor”.

Naquela noite, ao se aproximar de uma jovem senhora, uma antiga conhecida, essa se afastou dizendo não precisar de parasitas. Com isso, suas esperanças de dar um novo golpe do baú se esvaíram.

Foi até o computador e conectou-se a internet. Acessou um site de mapas e informou o endereço mais próximo, o endereço do morro. Não era tão distante. Imprimiu as informações, tomou mais um copo de uísque e decidiu pensar sobre o assunto no outro dia. Desligou tudo e foi pra cama.

Havia esquecido de fechar as janelas e assim, as sete da manhã, o sol invadia o quarto. João abriu os olhos com a claridade. Olhou para a mesa onde estava o relógio e encontrou a estranha pedra em forma de triângulo. Não se lembrava de tê-la colocado lá. Aliás, havia esquecido dela.

Levantou, colocou um abrigo e foi para a academia. Na esteira ficou pensando na pedra, então lembrou que havia aberto a caixa com os diários na cama. Como ela estava junto, ele mesmo deveria ter colocado na mesinha, separando-a dos diários. Pois acabou levando a caixa para a sala, para ler de forma mais confortável na poltrona.

Perto da academia havia um restaurante a kilo, entrou lá e se serviu. Uma das meninas, que havia se exercitado no mesmo período que ele, lhe sorriu. Pensou em convida-la para sentar em sua mesa, mas não estava com cabeça para uma transa. E pela qualidade das roupas que ela vestia, era a única coisa para que servia. Terminou de comer e voltou para o flat.

Sentou na cadeira em frente à mesa do computador e olhou os papéis impressos. “Por que não?” se interrogou. Foi ao quarto e arrumou algumas roupas em uma pequena mochila, pretendia voltar em dois dias, encontrando ou não o tal Josias. Por impulso, pegou a pedra e a guardou também.

Desceu até o subsolo e colocou tudo no banco traseiro do carro esporte preto. Com prazer, sentou-se ao volante do carro e girou a chave, ouviu o barulho do motor, ligou o som e o jazz tomou conta do pequeno ambiente. Ao sair da garagem teve que frear bruscamente para não atropelar um gato avermelhado, que ainda o encarou com seus enormes olhos verdes. As pessoas o olharam de forma esquisita.

“A humanidade está realmente cruel” pensou João “estranham um motorista parar para não atropelar um gato”. Seguiu em frente e deparou-se com o grande tráfego de São Paulo e logo ficou parado.

Já era noite quando conseguiu andar com desenvoltura na Via Dutra. Estava em um ponto em que podia enxergar o Aeroporto Internacional de São Paulo, o Cumbica. Em nenhum momento lhe passou pela cabeça: ir de avião. Sentia prazer em dirigir e achava que essa viagem serviria para colocar suas idéias no lugar. Como o que iria fazer de sua vida dali por diante. E principalmente, algo em que nunca havia pensado: no que poderia trabalhar.

A viagem estava iniciando realmente agora, e João podia prever um trajeto tranqüilo, não havia movimento do lado contrário e o caminhão que o seguia não estava tão próximo. Foi quando olhou para frente e viu o menino no meio da pista que estava.

domingo, 5 de setembro de 2010

Capítulo Seis

Duque de Caxias, Rio de Janeiro

Doca sentou em uma calçada e ficou pensando no que iria fazer. Não podia ficar muito tempo em Duque de Caixas, Bagão tinha conhecidos ali. Na sua imaginação, já circulavam cartazes dizendo:
“Procura-se Eduardo Oliveira, 10 anos, pele morena, cabelos e olhos castanhos, magro, 1,45 de altura. Paga-se recompensa. Trazer vivo ou morto”.

“Preciso sair daqui e ir para um lugar sem sol. A mãe sempre dizia que eu era bem branquinho, como ela e meu pai, mas a nossa pele havia ficado morena de tanto sol. Se eu ficar branco, ninguém mais me reconhece.”

Foi nesse momento que Doca viu um pequeno caminhão azul, muito velho, carregando vários móveis. Um homem se despedia e entrava em um opala. Dentro do carro, uma mulher e duas crianças. Estavam se mudando.

Doca se aproximou com cuidado do motorista, um homem de cabelos e bigodes brancos, que colocava uma camiseta.

– Tio, pra onde o senhor está indo?– perguntou Doca

O homem virou assustado, procurando a voz. Era um homem alto e olhando para baixo, encontrou Doca, fazendo a cara mais inocente do mundo.

– Estou indo pra Resende, menino. – respondeu – Por que quer saber?

Rezende era quase fora do Rio de Janeiro, pelo que Doca lembrava das aulas de geografia, e subitamente decidiu: ia para São Paulo.

– O senhor me dá uma carona? – pediu.

– Mas a tua mãe vai ficar preocupada contigo.

– Não, foi ela quem pediu. – mentiu Doca – Ela está muito doente e meu pai foi trabalhar em uma construção em São Paulo. Não conseguimos falar com ele, tenho apenas o endereço e não tenho dinheiro para pagar um ônibus até lá. Por favor, nos ajude.

O homem ficou pensativo, como se através dos olhos de Doca, pudesse identificar se o menino estava mentindo ou não. Mas as lágrimas que ameaçavam desabar o convenceram.

– Está bem. Entre pelo lado do carona, moleque.

Doca sorriu e correu para o outro lado, com medo do motorista mudar de idéia. Sentou, colocou a pequena sacola e a bolsa da sua mãe no chão, antes de ajustar o cinto de segurança.

No rádio, tocava uma música sertaneja. No painel, várias fotos e adesivos.

– Meu nome é Antônio, e o seu?

– Eduardo.

– Meu neto mais novo se chama Eduardo. O que a sua mãe tem?

– Ela sofreu um acidente. Está com o corpo todo queimado.

– Que horror. Ela estava no ônibus que o caminhão bateu?

– Sim.

– Nossa. Desejo boa sorte pra vocês. A maioria morreu naquele acidente, não?

– Sim.

Antônio acabou mudando de assunto, viu que o menino se encolhia cada vez mais e sua voz se tornava chorosa. Coitado, não deveria ter ninguém mais no mundo. Então começou a contar as travessuras dos seus netos. Três horas depois, chegavam a Rezende.

– Pode me largar aqui na Via Dutra mesmo. – falou Doca.

– Você tem certeza?

– Claro – sorriu Doca – Vou até um posto ver se consigo carona com um caminhoneiro.

Antônio parou o caminhão e mexeu na carteira.

– Não é muito – disse dando quinze reais a Doca – Mas pelo menos você pode comer alguma coisa.

Doca desceu do caminhão, e o viu andar mais um pouco, dobrar em uma rua e sumir. Com cuidado, caminhou meia-hora pelo acostamento da rodovia, até achar um posto. Já era quase noite e logo os caminhoneiros iriam parar para jantar e dormir. Avistou na lateral um banheiro, lá dentro havia além de pia e vaso, chuveiros. Ajeitou suas coisas e tomou um banho rápido. Quando desligou os chuveiro, notou que os seus pés estavam mais claros. Observando as pias, pegou uma pasta de dente esquecida. Usando os próprios dedos, fez uma limpeza rápida.

Saiu do banheiro olhando para os lados, caminhou lentamente até avistar uma grande árvore. Subiu e se ajeitou em um dos galhos mais próximos. Mexeu na bolsa da mãe, encontrou uma maça e um pequeno pacote de biscoitos. Comeu a maça e guardou o pacote para mais tarde. Cansado. Dormiu sentado no galho com as costas grudadas ao tronco.

Eram cinco da manhã quando acordou com o ronco do motor de um grande caminhão. Saiu rapidamente da árvore e foi até o estacionamento, onde umas dez carretas estavam paradas. Os quatro primeiros motoristas que abordou lhe negaram carona. O último, um homem na casa dos quarenta, com uma barriga imensa, chinelo de dedo e uma aparência de sujo o analisou de cima a baixo.

– Pra onde você vai?

– São Paulo. – Respondeu Doca

– Então entra. Vou até Pindamonhangaba.

Doca entrou, mas sentiu uma estranha aflição. Desejou pegar a pedra, mas isso ia chamar a atenção. Buscou os biscoitos no fundo da bolsa da mãe.

– Bolsa de mulher, hein?! – ao olhar os biscoitos – Isso não é café. Cê ta muito magro moleque. Espera um pouco. – o homem desceu e abriu uma pequena caixa que ficava acoplada ao caminhão. – Tome – disse ao retornar, oferecendo um pão com margarina.

Doca comeu com gosto e descobriu no caminho que Zé, como era conhecido, não era uma má pessoa. Sua aparência se devia ao cansaço, pois fazia três dias que viajava direto e só conseguira dormir algumas horas na noite anterior.

– Mas... como você agüenta? – perguntou Doca, curioso.

– Tomo umas coisas.

– Não é perigoso?

– Perigoso é... mas tenho quatro filhos pra sustentar. Preciso de dinheiro e quanto mais tempo dirigir, mais dinheiro eu ganho.

– E é muito dinheiro?

– Pior que não. Quem ganha dinheiro é o patrão que nos paga. O bom é carregar carro. Mas é um mercado mais concorrido.

Doca ficou sabendo os tipos de carga e o tempo de cada uma. Achou a vida de caminhoneiro interessante, embora fosse muito corrida. Tão corrida quanto a estrada, e quando se deu conta, Zé já estava parando na beira da estrada para Doca descer.

– Menino, dificilmente você vai conseguir carona agora. Vai caminhando até o segundo posto que encontrar nas proximidades de Taubaté, lá, sempre tem uns camaradas legais que param para almoçar.

Doca ganhou mais dez reais e agradeceu. Ajeitou a sacola nas costas, atravessou a bolsa da sua mãe no corpo e iniciou a caminhada pelo acostamento. Percebeu que não era o único que fazia aquele caminho. Outras pessoas o acompanhavam, alguns a pé, outros de bicicleta. Carros e caminhões passavam levantando poeira, alguns soltando fumaça. Nesse momento, idosos e crianças tossiam.

Doca caminhou os dezesseis quilômetros que separavam Pindamonhangaba de Taubaté. Era quase hora do almoço quando viu um carro destruído. Estavam retirando-o debaixo de um ônibus.

– Foi culpa do carro, seu guarda – dizia uma senhora baixinha – eu vi quando ele tentou ultrapassar um outro carro e entrou embaixo desse ônibus.

– Aonde a senhora mora? – perguntou o policial rodoviário anotando tudo em um papel.

– Ali – disse à senhora apontado para uma rua – na Vila Nossa Senhora das Graças.

Doca foi passando pelas pessoas até ver um menino que deveria ter a sua idade.

– Oi, aqui é Taubaté?

– É sim. Você estava no ônibus? – perguntou o menino.

– Não – foi à resposta de Doca que seguiu em frente, desviando dos curiosos. Passou por um posto parecido com o que havia parado no dia anterior, caminhou mais um pouco e encontrou o segundo.

Doca entrou na lanchonete e constatou que um prato de comida era barato. “Cinco conto uma la-minuta” pensou “não como a dois dias, posso comer um prato assim.”

Pediu seu almoço e comeu com vontade. A atendente, com pena, pegou um copo da água e colocou ao lado do prato. Doca sorriu para a bonita moça e pensou o que ela fazia ali? Mas se corrigiu, agora sabia que ninguém escolhia os seus caminhos. Terminou o almoço e pediu carona aos poucos caminhoneiros que ali se encontravam. Mas todos lhe negaram. E Doca voltou a caminhar pela Via Dutra.

“Dizia aquela revista no colégio que a Via Dutra recebeu esse nome por causa do presidente Dutra” se distraia Doca enquanto colocava uma camisa na cabeça para proteger do sol forte “que foi inaugurada em janeiro de 1951, começa no trevo das margaridas no Rio e termina no Tietê em São Paulo, e tem quatrocentos e dois quilômetros. Quantos quilômetros será que eu já percorri? E quantos faltam para eu chegar a São Paulo se tiver que ir caminhando?”, Doca se questionava enquanto observava o mato que o acompanhava pela rodovia.

“Será que Bagão morreu? Se ele morreu, ninguém vai querer me matar. Não...”Doca sacudiu a cabeça “Rico viria atrás de mim. Ele nunca ia me perdoar por ter matado o namorado dele. E caminhando nesse sol eu nunca vou ficar branco.” Observou os braços cada vez mais escuros. “Falando em branco, o que a professora havia falado sobre os bandeirantes?”

Doca caminhou quase quatro horas, misturando pensamentos de sua vida pessoal, com leituras de revista e assuntos aprendidos na escola. No final da tarde, chegou a Caçapava. Parou em uma lanchonete e pediu para usar o banheiro. Abriu a torneira, lavou o rosto e tomou água. Não sentia mais os seus pés. Ao mesmo tempo, lhe parecia que poderia andar pelo resto da vida.

Ao chegar na rua observou uma Kombi que dizia “Faço Frete”. O homem se preparava para sair quando Doca se aproximou.

– Oi. Aonde você vai? – o homem deu um pulo ao ouvir a voz de Doca.

– Que susto. Vou fazer uma entrega perto do de São Paulo. Por que?

– São Paulo capital?

– Claro.

– Você pode me dar uma carona?

O homem olhou na volta, como se procurasse alguém.

– Não tem nenhum adulto com você?

– Não.

Ele coçou a cabeça, como se pensasse por um momento.

– Está bem. Vamos. – Disse num tom, como se concluísse que um menino daquele tamanho não faria nenhum estrago.
Era noite quando Doca desceu da Kombi. Ao longe. Observava as luzes no aeroporto de São Paulo e por cima de sua cabeça os aviões passavam. Sempre tivera curiosidade de andar num. Distraído, tirou a camisa que ainda estava amarrada sua cabeça, e essa escapou de sua mão, sendo levado pelo vento para a pista contrária. Sem pensar, atravessou a pista correndo para busca-la. Abaixou-se para pegá-la no chão. Quando se levantou e olhou para frente, viu dois faróis muito perto e gritou.

domingo, 29 de agosto de 2010

Capítulo Cinco

Porto Alegre

– Lúcia, estive pensando... – começou Clarissa.

– Senti. – respondeu a outra.

– Ah... como assim, sentiu? – Clarissa arregalou os olhos.

– Senti o cheiro de queimado.

– É sério, Lúcia. – Esbravejou Clarissa. – Você leu os classificados no último domingo?

– Não. – Lúcia desviou os olhos, evitando admitir para colega que não possuía três reais para comprar o jornal dominical.

– Pois devia, se quer sair dessa vida. – Suspirou enquanto mexia na bolsa. – O que seria de você sem mim. Encontrei isso pra gente.

– “Vaga para formandos em Psicologia em uma grande empresa” – Lúcia leu em voz alta.

– Fala baixo, toupeira – disse Renata que entrava na sala – A megera e o Júnior já estão chegando e eu escutei a tua voz dizendo vaga lá da rua.

– Mas é em Curitiba! – exclamou Lúcia ignorando Renata – Não tenho como ir pra lá, Clarissa.

– Claro que tem. Até porque vamos juntas. Eu também vou me escrever.

– No que vocês vão escrever? – perguntou Renata

– Em uma vaga para formandos em psicologia – respondeu Clarissa – eles não exigem experiência, apenas que seja formando.

– Mas isso é ótimo pra vocês. Qual é a tua dúvida, Lúcia? – disse Renata encarando a colega – Vocês quase se matam estudando e não trabalham na área, tu achas que vai conseguir alguma coisa aqui? Trabalhando em uma consultoria? É uma chance de ouro.

– Para agarrar com as duas mãos. – completou Clarissa.

– Eu concordo com vocês. Muitas vezes penso que diabos faço indo todo dia para aquela faculdade trabalhando em uma área completamente diferente. – Olhou para as unhas antes de voltar a encarar as colegas. – Mas eu preciso ajudar no sustento da casa. E por pior que seja o trabalho, o salário é razoável e eu preciso desse dinheiro.

– Mas vamos ganhar o dobro lá. – disse Clarissa – Você abre uma conta pra tua mãe e transfere metade do dinheiro pra ela. E nós dividimos um apartamento. Aposto que ela vai ser a primeira a te incentivar.

– Ter o meu dinheiro sem ver a minha cara? Acho que ela vai amar. – Lúcia sorriu tristemente.


Joana passava a mãos pelos cabeços ruivos. Os olhos verdes já não possuíam o brilho da juventude, mas eram muito mais espertos. Só que, naquele dia, não sabia o que lhe atormentava. Torceu as mãos e lembrou do pai. Tinha aquela mania desde pequena e o pai dizia que ela era igual à avó: na aparência e nos gestos. Não se lembrava dessa avó, uma vez, virá a foto dela no jornal, no momento do seu falecimento. Seu pai ficou muito triste e se trancou no quarto por dias. Quando indagado do porque de não ir no enterro, respondeu que não podia, não havia dado o neto homem que Dona Irina desejava.

Por essa razão, ele não olhou para Lúcia quando soube que era uma menina. Já havia desaprovado o seu casamento com Pedro, um auxiliar de padeiro que trabalhava próximo a sua casa. Só que ninguém manda no coração, Joana se casou cedo para desgosto do pai. Silvio morreu de câncer quando Lúcia tinha dez anos, e não conheceu Ricardo, o neto homem que tanto havia desejado. Culpa do cigarro.

Depois, foi a vez de Pedro morrer em um incêndio. “Quanta tragédia.” Pensou Joana. “E qual a razão de começar a pensar em tudo isso?”. Quando terminou a frase, estava na frente do quarto de Lúcia. Entrou e foi até a cômoda, onde estava a pedra triangular. Segurou-a com a mão direita. Ela não lhe era estranha. Parecia que já a tinha visto uma vez, numa imagem que não sabia se era real ou imaginação sua.

Era muito pequena e lembrava de sua mãe sentada em uma cadeira, se balançando e grudada na sua barriga, havia uma pedra com reflexos amarelos e rosas. Como aquela que segurava agora. “Não! Minha mente já está criando coisas. Seria muita coincidência.” Balançado a cabeça, Joana largou a pedra de volta no seu lugar e foi arrumar a casa.


Lúcia olhava para o site. “Mal não há em me inscrever. Isso não é garantia de que vão me chamar”.

– E se nos chamarem, Clarissa? Ainda temos um semestre e meio?

– Falei com a coordenadora. Vamos para a Puc de lá e problema resolvido. Inclusive a questão do estágio. O curso é o mesmo, e as disciplinas também. Não teremos nenhum problema com a transferência e eles ainda nos darão uma carta de recomendação.

Sem mais pensar, Lúcia informou todos os dados. A sorte estava lançada. Voltando a realidade, pegou algumas fichas e começou a digitar, tinha uma hora para fazer o serviço de duas, mas a culpa era sua, por ser tão indecisa.

– Lúcia. Já terminou de digitar os cadastros dos funcionários do novo cliente?

– Ainda não, Júnior.

– Assim não dá. Por acaso estava fazendo trabalho para aquela porcaria de curso?

– Não, não estava. – suspirou – Não estou bem hoje, ta legal?! - mentiu

– E eu com isso – gritou Júnior – Você está me atrasando!

– O que está acontecendo aqui? – perguntou a gerente

Imediatamente todas ficaram eretas em suas cadeiras. As outras quatro moças mal respiravam para não serem notadas.

– O problema é que Lúcia está atrasada com a digitação dos cadastros e eu preciso desses dados para amanhã de manhã.

– E porque a Lúcia está atrasada? – A gerente questionou Júnior, ignorando a presença de Lúcia.

– Conforme ela, não está se sentindo bem.

– Aqui não é lugar para não se sentir bem. Senhorita Lúcia – pela primeira vez a mulher a olhou – trate de se sentir bem e só sair daqui quando terminar o cadastro. Sem horas extras é claro, já que o atraso é culpa sua – a mulher já ia saindo quando disse uma última frase – E sem erros.

– Cretino – Renata murmurou quando a gerente já tinha voltado para a sua sala.

– Eu? – Reclamou Júnior. – Vocês ficam fofocando besteiras e atrasando o meu trabalho e eu sou o cretino.

– Cretino e desleal. Tu sabes que a gente sempre se ajuda. Inclusive já te ajudamos. Mas lembre-se: pra ti, nunca mais. Lúcia, me passe alguns cadastros, já terminei a minha parte por hoje e estava adiantando coisas da próxima semana – e com o dedo em riste sentenciou – e se você abrir a boca, a gerente Marlene vai saber quem fez a análise do posto de combustível semana passada, enquanto você estudava para a sua prova de estatística.

Júnior sentou calado. Olhando com ódio para Lúcia. As seis horas todos os formulários estavam sobre a mesa do rapaz, que não encarava nenhuma das moças. Desde aquela noite, Lúcia passou a rezar, com a pedra embaixo do seu travesseiro, para que lhe chamassem na vaga de Curitiba.


– Me ligaram – sussurrou Clarissa em seu ouvido – e pra Soraya também. Fique atenda ao teu celular.

– A Soraya também se inscreveu?

– Eles abriram vaga para estudantes de direito também. Tentamos convencer a Ane e a Renata. Mas sabe com é, a Renata está noiva e a Ane é uma eterna apaixonada pelo Júnior. Só vai sair daqui, quando ele também for.

Lúcia suspirou, até o incidente dos cadastros, ela também era assim, mas ele havia sido tão sujo. E se antes ele não reparava nela, agora a ignorava por completo. Nunca mais atrasou nada que fosse pra ele, mas Júnior a culpou pela reprimenda de Ane, embora essa não tenha cumprido o prometido e, uma semana depois, já o estava ajudando.

No final da tarde, o telefone de Lúcia tocou. Aproveitando que a gerente estava em reunião, saiu do escritório e agendou a entrevista. Como o local era perto, marcou no horário de almoço. Foi uma conversa de aproximadamente meia-hora, com uma psicóloga e uma representante da área de recursos humanos. Lúcia não tinha experiência, mas apresentou sua idéia para o trabalho de conclusão, o que entusiasmou as entrevistadoras, que afirmaram estarem procurando um projeto como aquele.

Foi com alegria que voltou ao escritório e recebeu um sanduíche com suco de Ane.

– Como foi? – perguntou a colega
– Acho que bem.

– Quando sai o resultado?

– Na sexta.

Quando sexta chegou, nenhuma das três paravam quietas e as outras duas começaram a sentir a mesma ansiedade.

– O que está acontecendo aqui? - perguntou Júnior – O Brad Pitt virá nos visitar e ninguém me disse nada?

Nesse momento, o celular de Soraya tocou, e ela foi para o banheiro. Quinze minutos depois, ela se dirigia para a sala da gerente. Clarissa e Lúcia trocaram um olhar.

– Ei, eu estou falando com vocês. Lúcia, você pode me responder?

– Há, vejo que depois de várias semanas, tu lembrastes do meu nome?

– Para de bobagem. Me diz o que aconteceu com a Soraya?

– O que aconteceu – disse a própria Soraya saindo da sala da gerente – é que estou indo embora. Acabei de dar o meu aviso prévio.

– Sério? – exclamou Júnior – Para onde você vai?

– Para Curitiba.

– Precisamos brindar. – disse Renata indo buscar os copos.

No final da manhã, o celular de Clarissa tocou. E Júnior acompanhou abobado Clarissa fazer o mesmo caminho de Soraya. Banheiro, sala da gerência e comunicado. Seguiu os brindes e a comemoração.

Lúcia se revezava entre torcer as mãos e roer as unhas. Será que seria chamada? Será que teria coragem? E se não a chamassem? Ia ficar enterrada a vida inteira ali. Passou o almoço, a tarde chegava ao fim e nada. Com lágrimas nos olhos, Lúcia pegou sua bolsa e fugiu do serviço. Não podia comemorar a felicidade das colegas quando a sua inveja a entristecia.

Na segunda, todas as olhavam com cuidado. Lúcia se sentou quieta, tentando se conformar com a sua vida. O celular tocou e ela atendeu, esperando ouvir a voz da mãe pedindo alguma coisa.

– Bom dia. É Lúcia Cardoso?
– Sim. É ela.

– Aqui é Adriana, da indústria Ambiental. Eu fiz uma entrevista contigo quarta-feira passada lembra-se?

– Sim, claro – respondeu Lúcia.

– Como eu te disse, o teu projeto de conclusão é muito interessante. Levei a idéia para o diretor da empresa e ele adorou. Como sei que você nunca trabalhou na área, quero propor um desafio: você está disposta a assumir a coordenação do teu projeto dentro da nossa empresa? É claro que nos primeiros seis meses você vai passar pelo mesmo programa dos demais formandos, até para conhecer a empresa. Mas a sua cobrança será maior, pois depois desse prazo, você não será assistente de ninguém, você já será coordenadora da sua própria equipe. Aceita?

– Aceito. – As palavras brotaram da boca de Lúcia, sem ela nem pensar.

– Meninas... vocês não vão acreditar. – começou Lúcia após desligar o telefone.

– Senhorita Lúcia. Quem não vai acreditar é a senhorita. – falou a gerente – Venha até a minha sala.

Na sala da gerente estavam Júnior e vários papéis espalhados na mesa.

– Senhorita Lúcia. O senhor Medeiros fez toda a análise do nosso novo cliente e foi com surpresa que na apresentação, os dados não fecharam. Descobrimos que alguns dados foram cadastrados errados. – explicou a gerente colocando algumas folhas nas mãos de Lúcia – Gostaria que me explicasse o erro?

Lúcia olhou os papéis, eram as informações digitadas por Ane. Não podia entrega-la, pois era um trabalho seu. Por um momento, pensou que a colega havia feito de propósito, por saber que Lúcia também era apaixonada por Júnior. Mas nada disso era importante, pois ia mesmo pedir demissão.

– Foi um erro de digitação, senhora. É possível observar que são números próximos. Talvez pela necessidade de rapidez, isso tenha acontecido.

– A nossa sorte é que o cliente também havia repassado alguns dados incompletos e creditou o erro a isso. Mas a senhorita não terá a mesma sorte. Pode passar no departamento pessoal, está demitida.

– Sério? – Lúcia arregalou os olhos

– Tenho cara de quem está brincando? Eles já lhe estão aguardando. Peça para uma de suas colegas guardar suas coisas. Nos computadores dessa empresa tu não colocas mais a mão.

Lúcia levantou da cadeira a tempo de ver o sorriso de felicidade no rosto de Júnior. Abriu a porta e pediu:

– Clarissa. Guarda as minhas coisas em um caixa. Acabei de ser demitida.

As meninas levantaram num alvoroço, mas Lúcia não deu tempo delas falarem. Dirigiu-se ao departamento pessoal e assinou os papéis. Ficou sabendo dos valores que receberia e ficou feliz. Tinha que estar em Curitiba em um mês. Então teria tempo de sobra para providenciar tudo e pegar o fundo de garantia. Deixaria metade com a mãe, e o resto levaria para alugar um local com as meninas.

Quando retornou na sala, Ane chorava e Júnior a olhava com desdém. Clarissa lhe entregou a caixa e Lúcia a pegou com um sorriso:

– Obrigada, meninas. Mas não chorem, afinal, serei colega da Clarissa e da Soraya. Ane e Renata, quero encontrar vocês várias vezes antes de ir para Curitiba, não podemos deixar de fazer um festão de despedida.

– É brincadeira? – perguntou Ane.

– Não. O telefonema que recebi antes da gerentona me chamar era deles. Estou dentro também. Por isso – virando-se em direção a Júnior, Lúcia exclamou – agora tu podes pegar esse teu sorrisinho e o teu empreguinho de merda e enviar no cu.

Lúcia saiu gargalhando, enquanto Júnior derrubava café na mesa. Suas colegas não puderam brindar, mas também não seguraram um sutil sorriso que surgiu em suas faces.


Lúcia nunca se sentiu tão leve. Pegou o ônibus transbordando de felicidade. Por um momento uma voz interna quis insinuar que eles poderiam mudar de idéia, mas ela apenas balançou a cabeça e começou a fazer os planos para a mudança.

Olhou para o pequeno e antigo edifício em que morava. Mesmo da calçada, pode ver as cortinas do seu quarto balançarem suavemente. Foi tomada pela nostalgia que passou pelo hall de entrada, subiu lentamente os quatro lances de escada observando cada detalhe das paredes. Abriu a porta do apartamento em que morava e encontrou o olhar surpreso da mãe. Sem pensar, resumiu tudo em uma frase:
– Mãe pode comemorar. Estou indo embora de casa e do estado. Vou morar em Curitiba.

sábado, 31 de julho de 2010

Capítulo Quatro

Os diários de Manoela Galdos

“Diário Um

Olá querido diário. Sou Manoela Ribas, tenho dez anos e sou filha de Irina e Arnaldo Ribas. Meus pais são donos de uma fábrica de papel. Estudo em uma escola de pessoas ricas, mas não sou rica. Por isso me apelidaram de papeleira. Meu irmão não dá bola, diz que eles não são nada, mas eles ainda vão me tratar como uma princesa.”


“Diário Quatro

Hoje estou completando treze anos. Mas meu irmão estragou toda a festa. Ele engravidou uma empregada. Mamãe disse que se for um menino, ela irá perdoar, e ele será herdeiro de tudo. Não consigo compreender Dona Irina. Como pode permitir que Sílvio se case com uma qualquer?”


“Diário Cinco

É uma menina. Colocaram o nome de Joana. Achei que Dona Irina iria corre-los, mas não, permitiu que eles tivessem mais uma chance de terem um filho. Mas eu não darei essa chance. Agora que estou menstruando, tenho chance de lutar com o meu irmão.”

“Julios Galdos é um homem atraente. Doentio também, Pois com quarenta e cinco anos não desgrudava os olhos de uma ninfeta como eu, uma inocente menina de quatorze anos. Foi isso que facilitou tudo. Leva-lo até o jardim para mostrar as rosas, foi fácil e não precisei fazer nada para ele me tocar. Senti medo quando ele avançou e me tocou intimamente. O polegar acariciando o que, no futuro, será o bico dos meus seios. Quando me dei conta, ele levantava a minha saia e tirava a minha calcinha. Com as calças arriadas, ele me invadiu. Doeu. Sangrou. E ele se assustou. Me senti suja.”

“Valeu a pena. Estou grávida. Mamãe está horrorizada. Papai injuriado. Ameaçou matar Galdos, mas tudo se resolveu com o pedido de casamento. Em dois meses me caso. Ficarei escondida de todos. Pois Dona Irina não quer falatórios. Mas se tudo der certo, ela ficará orgulhosa do meu filho.”
“Diário Seis

Em 15 de maio nasceu João Felipe Galdos, único herdeiro dos Ribas e dos Galdos. Sim querido diário, único. Pois a vaca da esposa do meu irmão engravidou junto comigo, mas morreu no parto, ela e o filho. Henrique é o nome que colocaram no tumulo. Meu irmão Sílvio surtou. Pegou sua filha e foi embora."

“Diário Onze

Achei uma pedra no antigo quarto de meu irmão. Estou grávida novamente e precisava de um local para o bebê. Fazia cinco anos que ninguém, além das faxineiras, entravam ali. E lá estava ela, dentro da cômoda de Isabela, falecida esposa de Sílvio. Só não entendi a reação de mamãe quando a viu. Arrancou de minha mão e saiu correndo. Ela caiu nas escadas e quebrou o pescoço. Quando a vi, meu primeiro impulso foi ir até ela e recuperar a pedra, que coloquei em meu bolso. Só depois chamei por socorro. Agora estou olhando para esse triângulo gelado, e não tenho idéia de que mistério esconde.”

“Perdi o meu bebê. Acho que fui castigada, pois como minha cunhada, meu sangue lavou os lençóis durante a noite e agora, não posso mais ter filhos. Julios me chamou de incompetente e eu, o chamei de velho caduco. A dor é muito grande, até porque essa criança era muito diferente, ela era especial, foi feita com amor. Com todo o amor que sinto por Diogo. Sei que essa criança seria uma mistura nossa, talvez com os cabelos castanhos de Diogo e os meus olhos verdes, ou talvez com os meus cabelos vermelhos, iguais os da minha mãe. Minha mãe, que falta você me faz. Mas a culpa é sua, por ter inventado a idéia de que o herdeiro seria o filho que lhe desse o primeiro neto homem. Como sou infeliz.”

“Diário Treze

Entrei no quarto de Dona Irina hoje e, quem diria, mamãe também tinha diários. Comecei a ler e descobri coisas muito interessantes. Não sabia que ela havia morado em Minas Gerais. Nem que já tinha sido casada com um tal de Carlos. Ela também cita uma pedra, que ela chama de maldita. Uma pedra retangular com um reflexo semelhante a que encontrei no quarto do meu irmão. Agora entendo a reação dela. Diz ela que ganhou a pedra da sogra, que a odiava, e o presente trouxe muitas desgraças, entre elas a morte de Carlos”.

“Deus meu. Minha mãe teve um filho e o abandonou. Agora entendo o desejo do filho homem, ela queria algo para amenizar o sentimento de culpa. Por via das dúvidas queimei todos os diários, se descobrirem esse filho e ele tiver um filho homem mais velho que o babaca do João Felipe, meu sacrifício terá sido em vão”.

“Diário Vinte e Cinco

Estou doente, meu Deus. Muito doente. A febre me consome, os médicos não sabem o que é, nenhum remédio resolve. O que adianta todo esse dinheiro se irei morrer tão jovem? E quem diria, o imbecil do Julios irá sobreviver a mim, logo eu, que contava os dias para ele bater as botas e encontrar o meu verdadeiro amor. Embora eu ache que esse tenha sido Diogo, a quem agora estou indo encontrar. Coloco a pedra gelada sobre a minha testa, para ver se alivia. Ela poderia me dar sorte e devolver a minha saúde. Mas nem o sangue forte de minha mãe me faz lutar.”

“Pela primeira vez, desejei ter meus irmãos por perto. Sílvio, que não vejo a vinte anos, e esse desconhecido. João Felipe vai precisar de ajuda, é uma criança em forma de homem, mimado demais pelo pai. Se ninguém mais da família estiver por perto, o que vai ser desse menino? Meu último desejo é que ele arrume uma boa moça, jovem e bonita como ele, que o ajude a encontrar o caminho correto. Mas pra quem fez tanta coisas erradas, não sou merecedora de mais nada.”
“Cláudia, minha assistente particular, contratou um detetive pra mim. Sílvio está morto e meu outro irmão está no Rio de Janeiro. Vou tentar localiza-lo. Agora, vamos aos fatos estranhos do dia: a pedra estava quente e um gato avermelhado, de olhos verdes como os meus, apareceu no meu quarto, mas ninguém mais o viu. Mandei todos procurarem, pois odeio gatos. Preciso dormir, me sinto muito fraca.”

domingo, 18 de julho de 2010

Capítulo Três

São Paulo, Morumbi

– Vagabunda. Pilantra. Eu vou dar a volta por cima e você virá de joelhos, implorando por uma migalha de carinho.

João Felipe Galdos urrava na suíte que ocupava na mansão, produzindo ecos nas peças próximas. Revirando as gavetas, cofres e armários, constatava o inevitável: sua esposa e única fonte de renda, havia ido embora.

– O que ela esperava? Feia, gorda, velha... ninguém mais vai ter coragem de colocar uma aliança naquela mão ressecada . Muito menos trepar com ela. O que custava me deixar dar umazinhas com as mocinhas do clube? Maldita. – exclamava enquanto se dirigia ao outro - E agora? Quem vai sustentar essa casa? Não posso perder o único bem da minha família.

Como se levasse um soco, João se atirou para trás, caindo de costas na cama. “Estou cansado, estou muito cansado” pensou enquanto procurava o travesseiro mais próximo “amanhã... amanhã tudo será resolvido”.

O sol estava alto quando acordou. Pensou em pegar um robe, mas lembrou-se que estava de roupa. Tirou a camisa de seda amassada e a calça social. Entrou no banheiro e tomou um jato de água fria. Com a cabeça jogada para trás, deixou os olhos fechados enquanto a mente começava a trabalhar. Sentia-se como se tivesse bebido muito. Uma enxaqueca apertava-lhe os olhos e as pernas cambaleavam. Abriu a porta do Box, pegou uma toalha e procurou uma aspirina no armário do banheiro. Encarou-se no espelho. Para um homem perto dos quarenta estava bem, mas não o suficiente para competir com os jovens modelos.

Necessitando do colo da mãe, caminhou até a suíte principal da casa e deitou-se na grande cama. Manoela Galdos havia sido uma grande mulher, talvez por ser tão bela, inteligente e forte, morrera cedo, aos trinta e cinco anos, vítima de uma febre misteriosa. Após a morte da mãe, seu pai, um velho de sessenta e cinco, começou a namorar uma jovem de vinte e nela desperdiçou todo o seu dinheiro. Quando ele morreu, só havia restado a João a beleza dos traços aristocráticos herdados do pai e a mansão.

Mas foi a combinação do sobrenome Galdos, tradicional na sociedade paulista, com o corpo jovem e esbelto, somado aos olhos azuis e a mansão do Morumbi que atraíram a emergente Nádia Dias. Uma mulher de quarenta e cinco anos, gorda, dona de dez cachorros e de uma das maiores redes de hotéis do Brasil. Dinheiro fácil, se ele usasse a imaginação. E por isso, aos vinte e oito anos se casou com a mulher que lhe garantiria o sustento.

Pena que o ditado estava certo, tudo que é bom dura pouco, e num descuido, sua foto agarrado a jovem professora do clube que freqüentava foi parar na imprensa. Nádia havia engolido suas traições durante os dez anos, mas não poderia se sujeitar à humilhação de sua infidelidade ser pública. E lá se fora a sua galinha dos ovos de ouro.

Não tinha amigos a procurar, e mesmo que tivesse, nenhum o entenderia. Somente a sua mãe. Ela sim, que fizera a mesma coisa a trinta e oito anos atrás. Aos quinze anos ficará grávida de Julios Galdos, um homem de quarenta e cinco anos, o solteirão mais desejado da sociedade paulistana, e garantirá um sobrenome e a sua própria herança.

O sobrenome de agora nada adiantava. A casa estava vazia. Os empregados haviam ido embora com Nádia. E ele simplesmente não sabia o que fazer com a mansão.

– Madame Nádia decidiu ser gentil – disse o velho advogado - e não vai lhe exigir metade da mansão dos Galdos.

– Nem poderia – resmungou João – existe um documento dizendo que ela está fora da partilha, só um herdeiro meu teria direito.

– Pois bem – continuou o advogado – Madame lhe dará uma pensão.

– Pensão? – arqueou as sobrancelhas – Qual é o jogo Solano? Vamos lá, meu Velho. Diga.

– Não tem jogo nenhum Galdos. É apenas um pagamento. Graças ao seu sobrenome , ela se firmou na sociedade. Com isso, ela lhe dará uma pensão, não muito grande, durante dez anos. O valor não é o suficiente para sustentar essa casa.

– A vingança dela é a venda da mansão Galdos?
– Não. Ela não está se vingando – Solano encarou João de forma paternal – Assim como eu, Madame tem pena do senhor. Olhe a sua vida. Você não tem perspectiva nenhuma. – O advogado se levantou e foi até a janela mais próxima, onde a vista dava para um jardim descuidado. – Pense como uma chance de dar algum sentido na sua vida. De ser um homem de verdade e tomar as rédeas do seu destino.

– Não sabia que era psicólogo, Solano.
– Não seja irônico, João. Fui amigo dos seus pais e vi a grande bobagem que fizeram contigo. E não creio que você seja merecedor da sorte de ter encontrado alguém como Nádia, que merecia muito mais respeito da sua parte.

– Mas agora você pode dar esse respeito a ela, Solano – Enquanto João sorria o rosto do velho foi tomado de uma grande vermelhidão – sei da sua paixão por Nádia. Mas ela queria um sobrenome que lhe abrisse as portas da sociedade. Agora você poderá conquista-la e ambos serão felizes para sempre.
– Não é hora para brincadeiras, João. De qualquer forma, você é quem sabe. Daqui a uma semana passe em meu escritório para assinar os papéis.


Duas semanas depois, João recebia a notícia que a mansão havia sido comprada. Sabia que era Nádia, mas não podia fazer nada. Não tinha dinheiro para manter a mansão, sua pensão era suficiente apenas para alugar um flat, não para manter uma casa de dez quartos. E se aplicasse o dinheiro da mansão, talvez não precisasse se preocupar em trabalhar. Afinal, não sabia fazer nada, nunca teve necessidade de trabalhar ou fazer alguma faculdade.
Naquela tarde iria receber alguns representantes de lojas, pois nisso iria surpreender Nádia. Vendera a casa para ela, mas não os móveis. Havia avisado a imobiliária que, com exceção dos móveis da cozinha, alguns armários de banheiro e closets, o restante seria vendido e não seria entregue para o novo morador da casa. Só que ele conhecia Nádia e sabia que ela havia comprado de olhos fechados, sem perguntar absolutamente nada.

Os dias passaram rápidos, João encaixotava peças pequenas enquanto as grandes eram levadas. Até chegar o dia D, o dia de abrir o quarto de sua mãe e vender o que estava lá. Foi na venda das roupas que achou o cofre, escondido entre os milhares de sapato. Após a venda e retirada dos objetos, ficou naquele espaço vazio olhando para a pequena porta metálica. Sabia a senha. Sua mãe havia repetido aqueles números incontáveis vezes no seu leito de morte. Na época não havia entendido o que eram, finalmente sabia sua serventia.

Com cuidado, foi informando a combinação, após o último número, ele ouviu o click e a porta se abriu. Vários livros, diários, se corrigiu, apareceram. E uma pedra em formato triangular, que João lembrava de ter visto sobre a testa da mãe logo no início da doença. Nunca a esquecera pelo reflexo ora amarelo ora rosa que ela apresentava.

Guardou tudo com cuidado. No outro dia uma caminhonete viria buscar suas coisas e leva-lo para o seu novo lar. Entregaria as chaves do lugar em que havia nascido. Sua mãe deveria estar se revirando no tumulo por causa disso. Sem solução, desceu as escadas e admirou tudo a sua volta, como se fosse a primeira vez. Colocou a caixa, com os pertences de sua mãe, no canto perto da porta, junto com outras coisas, e com a pedra na mão, foi até a janela.

Lembrou da morte de sua avó materna. Na verdade, foi naquele dia que vira aquela pedra pela primeira vez. Deveria ter uns cinco anos e ela estava nas mãos de sua mãe, que acompanhava os reflexos amarelos e rosas através da luz da janela, quando sua avó entrou na sala e deu um grito. Sem nenhuma explicação, arrancou a pedra da mão de sua mãe perguntou gritando onde diabos havia arrumado aquilo. Pela primeira e única vez, virá a mãe acuada, mas não lembrava da resposta, apenas que sua avó saiu furiosa para a rua, de onde nunca mais voltou. Ela tropeçou nos degraus da escada e quebrou o pescoço. Sua mãe, antes de chamar o médico, recolheu a pedra e guardou no bolso lateral do vestido.O enterro foi triste e o primeiro de muitos, já que seus avós paternos seguiram o mesmo destino três anos depois. Sua família havia sido reduzida a três pessoas e agora era apenas uma: ele.

domingo, 27 de junho de 2010

Copa e dieta não combinam

Embora eu não tenha mais escrito nada sobre o assunto, a minha luta contra a balança continua e eu estou ganhando. Mas o grande problema é que quanto estabilizei nos 52 kilos chegou a Copa.

Qual o problema? Bom... quando uma mulher gosta (e muito) de futebol, isso significa que em caso de nervosismo, lá se vão as unhas... caso se queira a preservação das queridas, elas são substituídas por pipoca, rapadurinhas, chocolates... e a academia acaba sendo "matada" nos dias dos jogos, afinal... depois que já se está em casa, não se vai sair.

O objetivo continua... 48 kilos até dezembro, ainda bem que em julho a copa acaba.